
Introdução | Resenha: O Parque das Irmãs Magníficas – As malditas | Filme: Meu nome não é Johnny | Um milagre no sertão | Assaltante Joselito | Tia, sobrinha e a vida bela | A República do Cone | O fetichismo do consumo na ilusão cotidiana, como parte de uma sociedade desigual | Livros Indicados | Corpo Editorial | Escritores da Edição
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Em um planeta com 8 bilhões de habitantes, conviver é uma arte. Paciência, empatia, respeito e boa educação são virtudes que não abundam em muitos seres humanos. Todos nós temos no nosso círculo social ou familiar o tio do “pavê”, aquela velhinha que acredita e espalha como verdadeiras as histórias mais falsas e mirabolantes ou a tia das mensagens de “Bom dia” intermináveis no grupo de WhatsApp da família. Às vezes, o “sem noção” é inofensivo ou momentâneo (quem nunca deu uma bola fora que atire a primeira pedra!). Noutras, é um “Joselito”.
O Joselito é aquela criatura que não tem senso de coletividade, que age como se o universo estivesse à sua disposição, como se sua visão de mundo fosse o cânone. É um estilo de vida, como se a chatice ou a inconveniência fizessem um pacto perpétuo com o sujeito. Nesta edição, resolvemos apreciar a peculiaridade dos Joselitos. Escrevemos textos em sua maioria bem humorados porque há de se rir desse exército que carece de semancol. Desejamos uma boa leitura!


Livro: O Parque das Irmãs Magníficas – As malditas por Daiane Carrasco
Ainda sou um menino, não poderia viver sozinho no mundo. De noite, rezo. Ensinaram-me a rezar, e eu tenho fé, porque ainda sou pequeno. Deram-me um deus que cabe num rosário.
Um dia, estou numa reunião familiar e meu pai diz: “Se tivesse um filho veado ou viciado, eu o mataria. Pra que ter um filho assim?”, pergunta a todos à mesa. E todos concordam, dizem simsimsim, pra que ter um filho assim. Minha mãe também concorda com ele. Eu, que entendo tudo o que é tecido ao redor de minha feminidade, entendo sua ameaça. Noites atrás, escutei quando ele perguntava à minha mãe por que eu era tão afeminado para falar e ela respondeu que não sabia.
Agora que o escuto anunciar seu desejo de me matar, tenho muito medo. Já o vi apontar uma arma diretamente para os meus olhos. Já o vi bater na minha mãe, já vi como minha mãe aceita tudo dele com uma submissão de animal inválido. Rezo por causa disso. Para que este pesadelo, o pesadelo de minha vida, acabe.
O Parque das Irmãs Magníficas, ou As malditas, em edição mais recente, traz um misto de ficção e autobiografia da autora, Camila Sosa Villada, uma mulher trans. O livro trata de um grupo de travestis que se prostitui no Parque Sarmiento, em Córdoba, na Argentina, país de origem da autora.
É uma narrativa profundamente humana. Como no trecho destacado, vê-se um menino inadequado aos padrões heteronormativos lutando para sobreviver. Conforme o menino cresce, sua identidade sexual fica mais evidente. Aos 13 anos, começa a travestir-se. Utiliza cortinas velhas para criar suas roupas, entra na prostituição para ter experiências sexuais e para sobreviver.
Camila nos apresenta personagens fantásticos, como Tia Encarna e Brilho dos Olhos – a matriarca da pensão e seu filho, respectivamente. A insólita maternidade da travesti mais experiente do Parque e um menino abandonado entre arbustos numa noite fria comove até os mais duros leitores.
A obra causou-me um impacto duradouro. Não paro para pensar no que significa ser uma travesti, mas detalhes pequenos, como a dificuldade em disfarçar a barba numa época em que os hormônios eram pouco acessíveis, esmiúçam a complexidade da existência daquelas mulheres, que beiram a marginalidade. Percebi que o mundo não as quer. A autora aborda questões muito duras, como a prostituição num parque frio e escuro, os clientes violentos, o risco de morrer em um programa. Aliás, a morte está sempre rondando as irmãs magníficas, seja por doenças, como a AIDS, ou pela violência das ruas. Doeu-me a descrição da busca pelo corpo que sonham em ter. A maioria delas tinha pouco dinheiro e se submetiam a procedimentos estéticos arriscados, como o uso de silicone industrial para implante de seios.
Engana-se quem julga que o livro é enfadonho ou um rosário de lamentações. Muito pelo contrário. Camila é muito hábil na construção da sua prosa, tanto na linguagem, simples, com períodos curtos, como pela mensagem – há muita dignidade na vida travesti: as amizades, a cumplicidade, a solidariedade, os amores.
O maior mérito da obra é a desconstrução dos preconceitos. Vê-se como a transexualidade é mal compreendida, como no episódio da farmácia, em que as travestis são ridicularizadas por atendentes, como se não fossem merecedoras de respeito. Meu conselho é: leiam Camila Sosa Villada. Ela é uma das principais vozes da comunidade LGBTQIA+ na literatura contemporânea. No Brasil, ataques à deputada Erika Hilton ao presidir a Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados por “ela não ter útero e, portanto, não ser mulher”, reacendem a necessidade de uma literatura de ruptura dos modelos políticos dominantes. Um espírito crítico e civilizado começa por ouvir diferentes vozes e manter a mente aberta para a diversidade de atores sociais. Não há como excluir ou eximir-se da presença e da força das Irmãs Magníficas.


O Parque das Irmãs Magníficas – As malditas
Autora: Camila Sosa Villada
Inspirando-se em vivências reais, Camila Sosa Villada narra neste livro a busca de sua personagem por pertencimento desde a infância no interior, quando sonhava em despertar “convertida na mulher que quero ser”.
O pai bêbado e violento a adverte de que terminará morta jogada numa vala. Ao chegar em Córdoba para estudar, conhece as trabalhadoras sexuais do parque Sarmiento e descobre que ser travesti, apesar de todo ódio e fúria, também pode ser uma festa. E é aí que insistem em lhe dizer o óbvio: “Você tem o direito de ser feliz”.
A narradora conta sua história ― e a de diversas outras figuras inesquecíveis ― com uma prosa de vigor quase milagroso, mesclando a crueza dos fatos com os encantos da imaginação, casando a violência da palavra exata com o alento da poesia. Romance de estreia de Camila Sosa Villada, responsável por transformá-la em uma verdadeira estrela literária, As malditas é uma peça poderosa de sonho, dor e, sobretudo, resistência. Saiba mais… (Amazon)

Filme: Meu nome não é Johnny por Paulo Câncio
Filme baseado no romance homônimo de Guilherme Fiuzza que, por sua vez, é baseado na história real de João Guilherme, jovem de classe média que se envolve com drogas, incialmente como usuário e, depois, como traficante. A trama é ambientada no Rio de Janeiro e é um drama com toques de humor.
A história tem em início em 1990. Um advogado conversa com a mãe de João Guilherme sobre a prisão de seu filho. Ao perguntar se ela está bem, a resposta é “Tão bem quanto uma mãe pode estar quando descobre que o filho está em uma situação como essa”, a sensação de surpresa em sua expressão é visível e forte. Ao ser levado para a prisão, João passa a ter a mente povoada por memórias da infância, de um olhar inocente de menino.
É feito um flashback. O João Guilherme criança era aluno de boas notas e, ao mesmo tempo, aquele que liderava a bagunça, combinação pouco comum. Em casa, os pais, principalmente o pai, não tinham muito pulso. Vale destacar um momento em que João, em casa, com dois amigos, assistindo futebol, solta um rojão em frente à televisão. Quando os pais chegam, atraídos pelo barulho, ele diz com olhar e tom de voz inocentes:
– Foi Gol do Vasco. – O pai ri, dando ao filho a impressão de que era natural o que ele fez.
Na adolescência, João pede ao pai dinheiro para comprar uma prancha de surfe. O pai diz que daria metade do valor se João conseguisse a outra metade. Ele consegue, vendendo jornais; não era mimado, mas nenhum freio era dado às suas ações. Essa liberdade é acentuada depois que os pais se separam e ele fica com o pai. João passa a consumir drogas por influência dos amigos. Quando se vê em um aperto por não ter dinheiro para pagar uma dívida, propõe ao traficante vender drogas para quitá-la. Feito isso uma vez, torna-se um viciado. Faz festas em sua própria casa onde a droga é passada. Seus fornecedores são os mais variados. Chega a interromper a atividade por um tempo e se dedica a uma banda.
Recebendo proposta de voltar a vender, volta ao ramo, fazendo viagens para a Europa. O dinheiro ganho é torrado no consumo de drogas ou em outras formas de prazer imediato. Nesse período, ele está casado e começa a se preocupar com a situação financeira. Quando é preso em uma batida policial, está em casa com a esposa e um conhecido, também usuário de drogas.
Na prisão, a esposa o visita e põe um fim à relação. No julgamento, João se manifesta, assumindo toda a responsabilidade, isentando a ex-mulher. É condenado a passar algum tempo em uma instituição para tratamento. Cumpre pena por tráfico de drogas, mas não por formação de quadrilha. Quando sai da prisão, as mesmas imagens do menino inocente aparecem em sua mente. O menino cresceu e conseguiu mudar de vida.
O filme aponta um caminho de recuperação. Caminhos errados podem ser refeitos. É a mensagem para quem assiste ou para alguém próximo do telespectador.

Filme: Meu nome não é Johnny
Filme brasileiro de 2008, do gênero drama, dirigido por Mauro Lima, contando a história verídica de João Guilherme Estrella, um traficante da Zona Sul do Rio. Foi baseado em um livro homônimo de Guilherme Fiuza.
Filho de executivos, João Guilherme Estrela é um jovem de classe média alta, que frequentou os melhores colégios do Rio de Janeiro e tem amigos entre as mais influentes famílias brasileiras. Carismático e aventureiro, o rapaz se envolveu em todas as experimentações que sua juventude permitia entre 1982 e 1995, se tornando o principal fornecedor de drogas da alta sociedade carioca sem nunca ter pisado na favela, conhecido como o “rei do tráfico de luxo”. João nem imagina que está sendo investigado pela polícia quando amplia seus negócios para Barcelona, Veneza e outras conexões internacionais, sendo preso e vendo o céu se transformar em inferno ao passar pela penitenciária e manicômio.
Saiba mais (WikipédiA)


Um milagre no sertão por Igor Pires Leon
Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ele é o bom, é o bom, é o bom
Meu carro é vermelho
Não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia
E só na areia eu sei trabalhar
Cabelo na testa, sou o dono da festa
Pertenço aos Dez Mais
Se você quiser experimentar
Sei que vai gostar
(TRECHO DA MÚSICA: É O BOM – EDUARDO ARAÚJO)
Imaginem um sujeito que se acha o suprassumo, o inigualável, aquele que não tem para ninguém. Esta pessoa existe, não é nenhum personagem de ficção. É um sujeito de carne e osso, com sangue nas veias. Esse é o Nininho, o boa pinta, o sedutor, aquele que sabe de tudo, que arrota erudição, que está sempre certo no que diz e não aceita ser contradito. Os amigos acham-no o máximo, vivem paparicando o rapaz, babando ovo. As mulheres incautas pagam “pau” pra ele, que as esnoba. Não, para Nininho, filho de um renomado pesquisador, tem que ser filé mignon, “carne de primeira”, como diz aos mais próximos. Mas o vivente é um borra botas, um pedante de marca maior. Diz que é poliglota, mas mal e mal fala o português. Tem pose de rapaz rico, bem sucedido, mas não passa de um pé de chinelo que trabalha num cargo que seu pai conseguiu através de um conhecido. O seu carro é um automóvel popular que o papai lhe deu alguns anos atrás. Mora num apartamento financiado na Penha, do Minha Casa, Minha Vida, mas mente que mora no Tatuapé, lugar que frequenta aos finais de semana, desfilando com seu utilitário para cima e pra baixo, tentando conquistar as garotas do bairro chique.
Certa vez, Nininho caiu de quatro por uma advogada. Mulher de fechar o comércio, bonita, morena, de cabelos longos e encaracolados. Uma troca de olhares quando passavam pelo corredor para achar que ela estava caída por ele. Foi assim durante vários dias, semanas até, trocando olhares, sorrisos, piscadelas. Nininho cria que daria o grande salto em sua vida. Afinal, Paula era advogada, bonita, um troféu para mostrar aos amigos. “Deve morar na zona sul da cidade, talvez no Jardim Anália Franco − local de classe média-alta da cidade, gente metida a besta”.
Saíram para almoçar. Ele, peito estufado, o galanteador, o “bom”. Levou-a ao melhor restaurante do centro da cidade, pediu o melhor prato, o melhor vinho, tudo para impressioná-la. Ficou hipnotizado pela inteligência da advogada, que falava inglês, alemão e francês. Nininho não se fez de rogado, blefou que falava inglês, francês, espanhol e italiano. Para se vangloriar ainda mais, disse que morava num bairro nobre da zona leste, num belo apartamento. Paula não se mostrou impressionada.
Quando ela disse que morava nos confins da zona leste, em Cidade Tiradentes, Nininho recuou em suas pretensões. “Santo Deus, em Cidade Tiradentes só tem gente pobre!”, pensou. “Como uma advogada, ou alguém que se diz advogada, consegue morar naquele fim de mundo?! Ela quer dar o golpe do baú em cima de mim! Mas não vai dar não, pois eu sou mais esperto, não sou bobo”, continuou pensando. Agitou-se na cadeira, desconversou, quis pedir a conta, ir embora, nunca mais falar com aquela mulher. “Ela não tem o mesmo nível que eu.”, voltou a pensar. “Em que estou me metendo!”.
Nininho não dividiria a sua “fortuna” com qualquer uma. A mulher para ficar com ele tinha que ter um nível social elevado, igual ao dele. Mal sabia que a garota estava de mudança para o novo apartamento que comprara no bairro de Perdizes. Afinal, ele é o bom, e não tem ninguém igual.

Assaltante Joselito por Karine Souza e Pousas
O cheiro de café dobrava a esquina e ia instigar os narizes de todos que trabalhavam naquele quarteirão. Nove e meia era o horário de pico na cafeteria, até os que não saíam do escritório encomendavam o pretinho com pão de queijo para dar uma despertada. Consegui sair uns quinze minutos mais cedo e encontrei o comércio praticamente vazio, só duas pessoas à minha frente e ninguém mais chegando naquele horário.
— Fila grande hoje, né? — comentei com o moço à minha frente.
Ele, por sua vez, fingiu que nem era com ele. Não devia ser mineiro. Onde já se viu não jogar conversa fora enquanto espera a vez de ser atendido? Chegou a vez dele e, para a surpresa de todos, não encomendou nada. Soltou um berro:
— Todo mundo parado que isso aqui é um assalto!
— Minha nossa senhora! — a moça do caixa gritou.
— Misericórdia! — gritou a outra atendente.
— É em silêncio e sem fazer alarde. — disse ele — Ou eu pipoco é todo mundo aqui.
As duas atendentes abriram a boca do caixa e foram juntando as poucas moedas e notas que guardavam para um troco ocasional. Afinal, quase ninguém mais usava dinheiro para as compras.
— Pode parar com isso, dona. — disse o sujeito para a atendente — Eu nem disse que quero dinheiro, uai!
— E o que você quer então? — perguntou, surpresa, a moça do caixa.
— Pode passar o café. — respondeu o meliante.
Todos ficaram atônitos. Não contive meu riso e levei um safanão. A situação era cômica, mas podia ser trágica também.
— Eu venho aqui sempre. Sei que o pó fica debaixo do balcão. — vociferou o sujeito, retomando o ar grave para o momento.
A atendente tirou dois sacos de café. Eles tinham uns sessenta quilos cada, porém um já estava aberto. Na mesma hora que o pó de café apareceu no balcão, o ladrão de café deu um assobio. Rapidamente entraram dois comparsas na cafeteria, de forma tão sincrônica quanto uma peça de teatro. Um deles conseguiu levar todo o pó de café e o outro ficou pasmo, indeciso se seguia o colega com a carga ou se ficava por ali.
— E agora, o que eu faço? — perguntou, por fim.
— Vamos levar o café, uai. — respondeu o assaltante.
Pegaram as enormes garrafas térmicas que ficavam em cima do balcão e encaminharam para a saída. Num ímpeto a atendente suplicou:
— Deixa pelo menos as garrafas aqui. Meu patrão vai me demitir quando eu relatar o que aconteceu.
— Chama os homi, dá queixa. — propôs o sujeito.
— Vou fazer isso mesmo. — retrucou a balconista — É muito desaforo. Vou chamar a polícia e fazer um retrato falado, e eles vão te prender.
— Fala como a gente é que eu volto aqui e passo o cerol em você! — ameaçou o ladrão de café.
— Mas eles vão perguntar. — rebateu a atendente, já sem muito temor — Daí eu falo o que numa hora dessas?
O sujeito parou, analisou a cena e respondeu enquanto saía da loja e sumia no movimento da rua:
— Sem café é difícil… Fala que você nem percebeu o que aconteceu, que estava meio dormindo ainda.

Tia, sobrinha e a vida bela por Marcelo Elo Almeida
— Aqui está bom. Vamos abrir a barraca e as cadeiras, Vivi. Cheio de gente bronzeada, sarada. Galera bonita. Gostei do lugar.
Mineira, cinquenta e muitos anos, Lúcia queria aproveitar os últimos momentos de suas férias ao lado de sua sobrinha capixaba num lugar diferente de Copacabana, onde a correnteza e as valas não ajudam nem os locais, que dirá os de fora. Viviane, dezesseis, hormônios explodindo, a exuberância em curvas:
— Moço, pode trazer duas águas de coco bem geladinhas? Brigada.
O moço, bem moço, não tarda, entregando cocos e canudos, não sem antes lançar um olhar de surpresa e admiração para a mineira.
— Olha só, Vivi, aquele gato. Cabelo bem cortado, na moda, musculoso, sorriso lindo, sunguinha descolada. E o do lado, mais lindo ainda. Os homens tão dando sopa aqui no Rio, Vivi.
— Tia…
— Ai, e esse ar de verão com gente bonita é tudo de bom. Brisa leve, sol caliente. Vou voltar nesta praia ano que vem, com certeza.
— Tia… o pessoal tá olhando pra gente…
— As meninas também, olha só, todas bonitas. E como elas são carinhosas umas com as outras. Não é minha praia, claro, mas se fosse aqui seria o lugar ideal.
— Tia… tem gente apontando pra cá.
— Não tem som alto, o povo fala baixinho, todos educados. Que delícia!
— Tia…
— E eles ainda decoram as barracas com bandeirinhas coloridas. Que lindo!
— Tia…
— Tem um lindo ali baixando os óculos e olhando pra mim, Vivi. Nada discreto. Não olha não que pega mal. Tô me sentindo toda, Vivi.
— Tia, para de acenar pra ele. Ele não tá sorrindo pra você, tá é rindo da sua cara. Sacou que a gente não sabe onde está.
— Que nada! Olha só aquele outro, com cara de surpresa pra mim.
— Verdade, tia, mas é porque ele tá pensando que a gente é um casal!
— Quê?!
— Aqui é o posto nove, tia! Point gay de Ipanema.

A República do Cone por Daiane Carrasco
É como diz o ditado: “Atrás de um Joselito tem uma avó enjoadinha.” Tão certo quanto as leis de Newton. Aquela que não deixa o neto se sentar no chão para não encardir as bermudas, que corta a carne miudinha para poupar-lhe o trabalho das mandíbulas, que carrega a mochila do dito cujo às costas enquanto o alecrim dourado corre à frente, leve, como potro sem dono. Pois bem. Com Cacá foi assim, menino criado por vó em um apartamento de classe média na república de Curitiba. Como diria a pérola do ENEM de 2003: “No Paraná não é como nos outros países.” E não era mesmo. Juiz prendia ex-presidente sem provas e muitas convicções, filho de apresentador de programa de auditório virava governador – a lógica do Paraná era peculiar. Também era a terra de sua vozinha amada. A cada vez que ele se barbeava, ela trazia água de arroz e pequenos curativos de Minâncora e papel para acalmar os danos feitos pela lâmina em seu pálido e delicado rostinho.
Até que chegou o dia da derradeira separação. Choradeira. Cacá deixaria de ser menino e teria que se tornar homem. Encararia a selva Brasil em prol de um diploma que lhe abrisse as portas do mercado de trabalho. A mesada da vó não duraria pra sempre e sua velhinha já batia no topo da expectativa de vida. Deveria ter um emprego que lhe pagasse muito bem. Suas amígdalas gritavam ao menor frio, sendo indispensável o viver em ambientes confortáveis e climatizados.
Cacá cruzou com boas almas pelo caminho: Zulu e Chila. Fundaram uma república. Eram como os três mosqueteiros. Assistiam às aulas, reuniam-se com os colegas na biblioteca e vez por outra faziam festinhas regadas a cerveja e pão com ovo. Zulu era o melhor cozinheiro dos três, mas seu cardápio oscilava entre macarrão e bife, já que Cacá tinha um seletivo paladar infantil e Chila filava um rango na casa das meninas.
Os amigos, que não conheciam a vó, repetiam os zelos com o moço. Louça na pia? O detergente estourava as mãos de Cacá. Zulu assumia. O vaso sanitário entupiu? Ele não era hábil para resolver. Chila safava. Zulu e Chila viraram baleias, que é quem tem filho grande. Como o Paraná era país de primeiro mundo, com alta renda per capita, a república estudantil se equilibrava, até a chegada do cone.
Zulu e Chila viajaram por alguns dias. Desolado pela ausência de seus pais baleias, o filhote saiu para beber. Bebeu muito. Saiu do bar trôpego, cambaleante. Chegando em casa, correu para o banheiro, ficou tonto e se agarrou na porta. Uma das dobradiças quebrou. A porta resistiu como botijão de gás em fim de mês, mas não fechava mais.
Os dias transcorriam com o banheiro aberto. Zulu e Chila aportariam de volta na manhã seguinte. Cacá entrou em desespero. Logo ele, que não sabia pregar um prego, como consertaria a porta? Estava sem dinheiro – torrara a mesada da avó com frivolidades. Teria que esperar até a virada do mês para pedir mais dinheiro. Como pagaria o marceneiro? Não pagaria. Todos teriam que se encarar na derradeira hora do trono. Não… Era demais. A angústia o consumia. Saiu pela noite, sem rumo, sem saber o que fazer.
Chegou à avenida. Estava a pé. Viu uma barreira policial. Operação Balada Segura. Os motoristas eram abordados para o teste do bafômetro. Então Cacá iluminou-se com a lanterninha do rodoviário: um cone! “É tudo o que eu preciso!” – pensou. Numa distração dos agentes da lei, pegou um dos dispositivos auxiliares e saiu correndo. Cansou na primeira quadra. Parecia romeiro em procissão pagando promessa. Penitente, levou o pesado cone até a república.
Testou sua teoria. O cone era perfeito para calçar a porta. Ficou até bonito. As faixas refletivas dispensavam o acender das luzes. Era só seguir o brilho e achar o banheiro. Uma beleza! Deitou na cama e pode dormir aliviado.
Zulu e Chila retornaram. “Mas o que é isso, Cacá?” “É um cone!” – respondeu. Incrédulos, continuaram apertando o pobre vivente com perguntas. Sentindo-se acuado, com poucos argumentos, escreveu “Isso é um cone” e trancou-se no quarto aos prantos, incompreendido e de coração magoado.
“Ele não fica mais um minuto!” – os parceiros se revoltaram, esbravejaram ameaças, indignados pela solução pouco ortodoxa. Depois, ficaram com a consciência pesada. Talvez não tivessem dado o seu melhor. Onde haviam errado para que Cacá, filho grande de baleia, pegasse um cone na blitz em vez de tentar consertar a porta? Ou pior: Cacá nem sabia beber. No primeiro porre, deu prejuízo! “Mano do céu! Onde foi o nó da treta?” – e a ladainha seguia. Mas aí rolou a necessidade de um banho, de um número dois, a vida corrida, blablabla, e o cone foi ficando.
Os pais baleias perdoaram. Tornaram-se avós. Afinal, Cacá também era pai – do cone.

O fetichismo do consumo na ilusão cotidiana, como parte de uma sociedade desigual por Fernanda da Fonseca Pereira
Se posso ir à mesma festa e frequentar o mesmo salão de beleza que a alta burguesia, também faço parte da alta burguesia, certo? Não! Isso é apenas mais uma das ilusões do nosso sistema capitalista periférico. O autor Jessé de Souza nos fornece conteúdo suficiente para uma breve reflexão sobre esse tema. Sendo assim, nessa perspectiva, frequentar os mesmos lugares não nos torna iguais, já que isso não passa de “ilusão do sentido imediato e cotidiano”. A magia do fetichismo do consumo se ampara justamente na ilusão de igualdade entre sujeitos de classes diferentes.
Assim, nos faz crer que ter a mesma maquiagem, o mesmo corte de cabelo, frequentar a mesma festa, ter acesso ao mesmo objeto, serviço ou experiência nos torna iguais. Mas ao pagar a conta e retornar para a casa, a realidade se torna implacável: enquanto o trabalhador comum paga a sua satisfação de acesso a um espaço restrito e/ou serviço no cartão de crédito e sobrevive por meio da venda da sua força de trabalho, a grande burguesia não se preocupa em condicionar o valor das coisas, pois pode pagar qualquer preço. Afinal, sua conta bancária é infinita e independe da venda da sua força de trabalho.
Nessa lógica, o trabalhador pode até frequentar a mesma festa, mas volta para a periferia, enquanto a grande burguesia volta para a sua mansão, localizada no metro quadrado mais caro da cidade. A diferença é que o trabalhador lança mão de artefatos ilusórios para provar que pertence à determinada classe, sob risco de ser tratado como intruso, enquanto o sujeito que pertence à alta burguesia não precisa expressar esse pertencimento.
A realidade sobre a ilusão de igualdade de classe nos adverte: consumo não é posição de classe. A classe social não se define pelo consumo visível, concreto e ilusoriamente provado, muitas vezes, através das dívidas adquiridas ao longo das experiências de vida. A classe social se define por um conjunto de disposições, ou seja, habitus de classe[1]: heranças de exploração histórica e acesso desigual a capitais, sejam eles de cunho econômico, cultural, social e/ou simbólico.
A construção da subcidadania, como invisibilidade estrutural, não é dividida apenas entre ricos, pobres etc., mas entre cidadãos plenos (que tem direitos reconhecidos, dignidade assegurada e a acesso às instituições) e subcidadãos (trabalhadores comuns/precários, marginalizados e tratados como inferiores). Assim, o subcidadão pode até ter acesso aos mesmos bens de consumo, mas seu sotaque, seu poder real de compra, seus gestos e origem serão lidos como inferiores. Por fim, o cidadão pleno e o subcidadão poderão ocupar os mesmos espaços, mas têm posições sociais completamente diferentes. Com isso, consumo não apaga a exploração de classe, nem o preconceito e o lugar marcado para a subcidadania. Enquanto os cidadãos plenos ocupam o lugar de donos dos meios de produção, herdam capitais e reproduzem privilégios, os subcidadãos são mantidos em posição subalterna, ainda que “imitem” o consumo dos cidadãos plenos. Enfim, as estruturas de dominação não se acessam nas prateleiras das lojas de luxo.
[1] A partir do referencial de Pierre Bourdieu, o autor Jessé de Souza descreve, na sua obra “A construção social da subcidadania” descreve que o “habitus de classe” se expressa através dos modos de falar, de andar, de se vestir discretamente caro, network de relacionamentos, acesso a heranças, tempo livre para cultivo de gostos refinados, etc., sendo parte de um conjunto disposições próprias de uma classe social (2023).

Livros Indicados
Quem não curte uma trilogia? Que tal uma trilogia “made in Brazil”? Recomendamos um autor dos bons, o sensacional Milton Hatoum, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras! Confere aí!


A noite de espera
Autor: Milton Hatoum
Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado , Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação.
Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos.
Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo.
Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe. Saiba mais…

Pontos de fuga
Autor: Milton Hatoum
A empreitada literária O Lugar Mais Sombrio, trilogia que acompanha a formação sentimental, cultural e política do jovem Martim durante a ditadura militar brasileira, teve início com o romance A noite da espera (2017), que se desenrola nos anos 1960 na recém-construída capital do país. Neste segundo volume, o protagonista deixa Brasília e retorna a São Paulo, sua cidade, onde ingressa na faculdade de arquitetura da USP e passa a morar numa república de estudantes no bairro da Vila Madalena ― um grupo que lhe trará novas vivências e grandes companheiros para a vida.
Agora distante do pai opressor e dos amigos de Brasília, e sobretudo afastado de Dinah, a atriz militante com quem sua relação ficou estremecida, ele acompanha o endurecimento do regime autoritário no país, ao mesmo tempo que experimenta as agruras e adversidades da vida adulta, sempre assombrado pela incógnita do desaparecimento de sua mãe.
Um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea, Milton Hatoum volta a mostrar neste romance a força de seus personagens e a incrível capacidade de reencenar a história com sua ficção magistral. Saiba mais…



Dança de enganos
Autor: Milton Hatoum
Neste drama familiar, com forte pano de fundo histórico e político, estilo que consagrou Milton Hatoum, o tempo do amor, das perdas e dos enganos é o próprio tempo da ficção, que aqui surge em máxima potência através da voz trágica de uma personagem assombrosamente resiliente – e absolutamente inesquecível.
“É possível explicar ou entender certos sentimentos? […] É preciso dar tempo ao passado.” Estamos no fim dos anos 1960. É Lina, mãe de Martim, quem nos conduz pelos desvãos da época. A distância em relação ao filho cresce no turbulento contexto da ditadura, e se “o tempo de silêncio tem uma história”, ela decide escrever.
O irmão Dácio, a mãe Ondina, a empregada e confidente Delinha, o artista Leonardo. Lina revisita sua vida e a das pessoas ao seu redor, compondo uma galeria notável de almas desgarradas, que entram e saem das páginas deste livro como se fossem sombras num longo e nebuloso sonho.
A ausência de Martim, no entanto, protagonista de A noite da espera e Pontos de fuga , é também sua presença, inequívoca, em cada ato e palavra da mãe. “Nem todas as dúvidas são vazias”, escreve Lina, e em meio a ecos de Conrad e Juan Carlos Onetti, Dança de enganos nos faz a pergunta-chave de toda ficção que remonta o passado: a memória, afinal, escolhe o que ela esquece? Saiba mais…


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Editora
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Autora do Livro Ozzy & Johnny.

Designer e Criação
Karine Souza e Pousas
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Consultor de T.I. & Terapeuta Corporal.
Instagram: @sehfernandes
Site: sehfernades.com.br
Autor do Livro Zé das Campas.

Escritores da Edição nº 30 de 2026 – O Joselito nosso de cada dia
Paulo Câncio
Escritor & Pianista
Instagram: @paulocanciodesouza
Autor dos Livros Trajetória de Aventureiro
& Momentos da Vida (Direto com Autor)



Igor Pires Leon
Escritor
Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.
editoranauta.com.br
clubedeautores.com.br
Instagram: @igorpiresleonescritor




Fernanda da Fonseca Pereira
Assistente Social com mestrado e doutorado em Política Social e Direitos Humanos.
trabalho com as comunidades da Zona Oeste do Município do Rio Grande, experiência que provocou a escrita do livro “Reincidência da Violência Contra Meninas e Mulheres Pobres do Município do Rio Grande/RS”. Desde 2014, escrevo no meu blog “Mulher Inteira” dando vida ao desejo pela escrita e reflexão política sobre o mundo, em que (sobre) vivemos. Enfim, sou mulher vinda da periferia, criança crescida em situação de violência, mãe atípica, Sacerdotisa de Umbanda e Mulher de luta e esperança.
Instagram: @fernandadafonsecapereira
Blog: mulherinteira.blogspot.com