Edição 25 – O melhor do Brasil é o brasileiro – Setembro 2025

Edição 25 – O melhor do Brasil é o brasileiro – Setembro 2025

Introdução | Resenha do livro: Canção para ninar menino grande | Filme: Que horas ela volta? (2015) | A hospitalidade e o acolhimento | A criatividade em meio a condições adversas | A erudição, com alegria e leveza | Até quando tudo dá errado, dá certo | A força de um povo na simplicidade | Livros Indicados | Corpo Editorial | Escritores da Edição

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“Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.” (Carta de Pero Vaz de Caminha, 1500)

Na descrição do escrivão da esquadra de Cabral, Pero Vaz de Caminha, nota-se o encantamento por aquele povo, tão distinto do português. Eram belos, pintavam-se com tinturas pretas, andavam nus com naturalidade. Passamos por séculos de vilipêndio cultural dos nossos povos originários, recebemos levas de imigrantes europeus e de imigrantes africanos forçados – os escravos. A miscigenação produziu um povo único.  Somos reconhecidos continentes afora como uma gente alegre, resiliente e criativa. Temos muito a ensinar para o mundo.

Nesta edição, tentamos trazer um pouco desse espírito brasileiro. Os textos foram inspirados por vídeos curtos que viralizaram nas redes, mostrando o nosso melhor. Esperamos que cada leitor se sinta orgulhoso por ter nascido no florão da América. Boa leitura!

Se quiser conferir os vídeos veja na playlist abaixo:

Ilustração: Olga Carrasco Chaves

Resenha do livro: Canção para ninar menino grande por Marcelo Elo Almeida

Conceição Evaristo, uma das mais renomadas escritoras brasileiras do século XXI, expõe seu método, escrevivência, logo no primeiro capítulo, buscando introduzir o leitor em seu modo de escrita. Quando efetivamente começa o enredo, a primeira personagem que aparece é uma contadora de sua própria história. Juventina Maria Perpétua é apresentada como uma senhora já idosa, que narra suas desventuras para a autora, que se coloca como amiga da personagem. Ela rompe o liame entre ficção e realidade, buscando produzir uma literatura mais fiel possível à vivência das pessoas que, em seus livros, tornam-se personagens. Ela reconhece que seu método é irrealizável, pois “a letra não agarra tudo que o corpo diz” e “a grafia não registra a intensidade de um silêncio intervalar…”

Conceição Evaristo Escrevivência é, como a vida sempre deveria ser, uma utopia. Como a linha do horizonte que nunca se alcança, por mais que o nosso desejo nos impulsione para ela. Como a vida, a literatura de Conceição Evaristo se faz humana, mas também extremamente rica e elaborada, buscando o contato vida a vida por meio da literatura. Em “Canção para ninar menino grande”, apresenta-nos a história de Fio Jasmim, um homem bonito e sedutor que trabalha como maquinista nas ferrovias mineiras. Em cada estação, sempre encontra uma mulher com quem se relacionar, usando sua beleza e atração naturais para conseguir seus objetivos sexuais. Podemos traçar um paralelo com as histórias de marinheiro que, em cada porto, deixa um amor. Minas não tem mar, mas tem uma malha ferroviária que também permite imaginar o que existe além da linha do horizonte. Para Jasmim, além da linha do trem, sempre alguém a se conquistar. Trata-se de um romance, uma história de amores. 

Boa parte de seus capítulos bem poderiam ser lidos como contos, onde cada um começa com o nome de uma mulher, uma conquista de Fio, e encerra uma história individual de amor ou desamor. Cada uma a seu jeito.

Neide Paranhos só queria de Jasmim um filho, apesar de amá-lo; Devaneia não queria um filho, queria um casamento; Tina queria-o para si, mas precisou dividi-lo durante toda a vida, cabendo-lhe as sobras; já Aurora Liberto, pouco juízo e muita liberdade, desprezava os homens, ao mesmo tempo que os enlouquecia banhando-se nua no rio da cidade. Aurora, Neide, Devaneia, Tina e outras. Mulheres com vidas e histórias distintas, tendo em comum o amor por Fio Jasmim. Amar com esperança de eternidade, amar sem querer nada em troca, amar aceitando Fio como ele é, amar renegando a liberdade dele.

Conceição Evaristo imprime muito lirismo nessas histórias, deixando-nos perceber sua própria visão de mundo. Riqueza humana em tanta diversidade mas que, na figura masculina, reduz-se drasticamente. Jasmim se vê como cumpridor do que considera seus únicos papéis sociais: marido fazedor de filho na esposa e macho comedor de mulher. Vive no raso das conveniências, satisfazendo em cada estação de trem o instinto que o move. Ele só consegue crescer um pouco quando conversa com uma mulher que não o atrai sexualmente. Ao conhecê-la, consegue ouvi-la e entender um pouco não só a cabeça mas o coração das mulheres.

Não há dúvidas de que Fio Jasmim é o personagem que atravessa toda a história. Mas, onipresente mesmo, o que temos é o espírito feminino que, de tão complexo e diverso, precisou de várias personagens para representá-lo. Para o espírito masculino do tipo raso bastou um representante. “Canção para ninar menino grande” é sobre as mulheres, apesar do título e do protagonista.  O resultado final é composto de histórias absolutamente comuns, de fácil leitura, contadas de modo singelo e altamente elaboradas, buscando extrair e nos apresentar o mais humano de cada vivência. Escrevivência.

Canção para ninar menino grande
Autor: Conceição Evaristo

Trata-se de um mosaico afetuoso de experiências negras, um canto amoroso e dolorido. Na figura do personagem Fio Jasmim, Conceição discute com maestria as contradições e complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com as mulheres negras. O livro é um mergulho na poética da escrevivência e ao mesmo tempo um tributo ao amor sob uma ótica poucas vezes vista na literatura brasileira. Saiba mais…

Filme: Que horas ela volta? (2015) por Christiane Andréa

“Que Horas Ela Volta?” (2015), dirigido por Anna Muylaert, conta a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica pernambucana que trabalha há mais de dez anos na casa de uma família rica em São Paulo. Ela cuida com dedicação do filho dos patrões, Fabinho (Michel Joelsas), quase como se fosse seu, mas vive distante da própria filha, Jéssica (Camila Márdila), que ficou em Pernambuco. O enredo se desenrola a partir do momento em que Jéssica vem para São Paulo por conta do vestibular.

A protagonista se vê confusa após a chegada de sua filha, pois a patroa não se sente confortável com a presença da mesma nos espaços da casa. Jéssica tem uma postura diferente da mãe, se mostra empoderada e avessa às opressões impostas por uma sociedade elitista e desigual, não estando disposta a se submeter. Embora a película exponha de forma sensível e crítica as relações de classe e os afetos entre quem serve e quem é servido no Brasil, podemos analisar sob a luz de um novo olhar da desigualdade de gênero, da identidade e da autoestima.

O choque de Val ao ver a ousadia da filha desencadeia o repensar a própria vida e os próprios limites. Ela se observa submissa, desvalorizada e impotente diante do poder da patroa. Acostumada à submissão, representa a classe das “operárias”, geração que aceita migalhas para sobreviver. Cria-se uma antítese entre ambas – submissão x resistência: Val representa a submissão e a gratidão excessiva. Jéssica simboliza a resistência e a recusa em aceitar hierarquias sociais.

Embora relutante, a mãe sente reacender em si uma chama libertária através da filha, que se impõe diante de seus objetivos e de suas vontades. Val encarna uma nova postura: ousada, questionadora e confiante. Ela rompe barreiras e confronta o sistema de privilégios dentro da casa. Surge uma nova busca de identidade e autoestima através do inconformismo da filha.

Jéssica busca sua independência pela educação como ferramenta de transformação. Encontra na universidade pública uma chance de ascensão social. Distingue claramente as diferenças entre o privilégio de Fabinho (que não precisa se esforçar) e a sua luta diária. Não aceita a naturalização de mulheres pobres em posições subalternas de cuidado e afazeres domésticos.  Ao final, com a tomada de consciência de sua condição de oprimida e buscando sua autoestima, Val reflete que “cada um tem o seu lugar” e se demite, indo morar com sua filha e seu neto. O filme nos incita ao debate do feminismo de forma real e prática, pois toda a mulher tem desejos e sonhos, independentemente da classe social. Cabe a cada uma virar a mesa da submissão. Vale a pena assistir!

Que horas ela volta? (2015)

Direção: Anna Muylaert| Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas

A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir a São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica. Saiba mais… (Adoro Cinema)

A hospitalidade e o acolhimento por Igor Pires Leon

A hospitalidade do brasileiro

Vasco e Sandro deixaram Portugal para passar as férias no Brasil, conhecer as tão famosas praias do nordeste brasileiro. Reservaram um quarto num hotel três estrelas em Fortaleza. Estavam felizes com a viagem, com a perspectiva de relacionarem-se com novas pessoas de um outro país. De cara, ficaram maravilhados com o que viram pelo caminho. Ah, Brasil brasileiro! Descansaram à tarde, pois estavam exaustos da viagem longa. À noite desceram para o bar do hotel, pediram duas caipirinhas e resolveram dar uma volta pelas imediações, regressando de madrugada.

Desejavam ir além das praias, queriam conhecer outras paragens. Alugaram um carro, pediram dicas ao pessoal do hotel. Indicaram um lugar afastado, tranquilo, ótima paisagem, um lugar para realmente curtirem. Puseram-se a caminho, animados. Até aí, tudo bem. Apanharam a estrada que não era lá essas coisas, toda esburacada, soltaram piadas. De uma hora para outra o GPS deixou de funcionar. Não desanimaram, continuaram, certos de que encontrariam uma placa que indicaria o destino ao qual pretendiam ir. Vai estrada esburacada à frente, interminável. A paisagem mudou. Era mato para tudo quanto era lado. A fome bateu. Já tinha passado da hora do almoço.

Viram uma placa: “Casa Gileade”, uma paragem para abastecerem os estômagos vazios. Não pensaram duas vezes, seguiram a seta, entrando por estrada de terra batida. Não demoraram muito e encontraram a tal Casa Gileade: pessoas numa varanda, em volta de mesas, bebendo cerveja gelada, almoçando. Ao fundo um pagode animado – era ali que almoçariam. Desceram do veículo, caminharam em direção à casa. As pessoas olharam estranhamente para eles, afinal, quem eram aqueles dois estranhos? Vasco e Sandro ocuparam uma mesa vazia e foi Vasco quem perguntou para uma moça, cujo nome é Lídia, se ainda dava para almoçar. Ela, sem entender nada, pensando que fossem conhecidos do marido, ou de seu irmão, que estavam ali para a festa de aniversário, respondeu que sim, que ainda dava para almoçar. Sandro pediu um refrigerante e dois almoços. Lídia, confusa, tratou de preparar o prato dos dois sujeitos.

“Quem são eles?”- perguntou sua irmã. “Eu lá sei. Devem ser amigos de Dinaldo ou de Francisco!” – disse Lídia. Dinaldo, não conhecendo nem um nem outro, aproximou-se da mesa querendo saber dos dois rapazes o que estavam fazendo ali. Perguntou assim, com calma, na paz. “Ora, o que se faz num restaurante a não ser comer?” –  respondeu Vasco com a lógica portuguesa. Dinaldo soltou uma gargalhada que nenhum deles entendeu. Ambos se entreolharam. Vasco quis saber o que se passava, sentindo-se incomodado com a atitude do gajo.

“Rapaz, vocês estão no lugar errado. Aqui não é restaurante coisa nenhuma. É um sítio, estamos comemorando o meu aniversário!” – disse Dinaldo amigavelmente, para horror de Vasco e Sandro, que não sabiam onde enfiar a cara. Pediram mil desculpas, mas gente boa que era, sujeito tranquilo, disse para ficarem, que onde comem quinze, comem vinte e até mais, que comida ali não faltava e que seriam bem-vindos para comemorar o seu aniversário. Ele pediu para Lídia, sua esposa, servir mais comida ao novos amigos e que, se quisessem, podiam passar a noite. Vasco e Sandro riram sem graça, mas aceitaram o convite, até pernoitaram, despedindo-se somente no meio da tarde do dia seguinte, levando com eles a recordação da hospitalidade do povo brasileiro e novos amigos no coração.

A criatividade em meio a condições adversas por Karine Souza e Pousas

Uma Mãozinha

Mundialmente famoso pela gambiarra, o brasileiro se orgulha por carregar essa personalidade marcada pela inventividade e pela coragem de concretizar suas ideias. O filtro de barro e o chuveiro elétrico são dois exemplos de invenções brasileiras que se popularizaram, permitindo o acesso à água com maior qualidade, seja própria para beber, seja aquecida para um bom banho.

Muitas vezes vivendo em condições extremas, encontramos um brasileiro criativo, com uma mentalidade focada na solução, mantendo outra marca registrada que é o bom humor. Encontramos assim soluções que mostram como o tamanho do problema não é impeditivo para encontrar um jeito de resolver a questão. No calor do verão de Belo Horizonte, por exemplo, moradores de uma favela transformaram a caçamba de um caminhão, forrada com lona e cheia d’água, em uma piscina comunitária.

Durante a pandemia Covid-19, a situação ficou mundialmente complexa. Em terras tupiniquins não foi diferente. Muitos hospitais apresentaram um cenário de superlotação. Foi nessa situação que Lidiane Melo encontrou uma solução mundialmente admirada e posteriormente copiada: a técnica da mãozinha. Com dificuldade em medir a saturação de um paciente, Lidiane tentou os procedimentos previstos, sem sucesso. Ela então teve a ideia de encher duas luvas com água morna, amarrando a ponta dos dedos, colocando-as como se segurassem a mão do paciente. A circulação do paciente melhorou alguns minutos depois, permitindo que a enfermeira medisse a saturação de oxigênio, descobrindo assim quais medidas tomar.

Sempre pronto a dar uma mão, o brasileiro não apenas inventa, ele também compartilha. O canal do YouTube “Cozinha na Favela” mostra Cláudio Freitas compartilhando gambiarras e receitas de modo irreverente. Máquina de churros caseira, geladeira velha com dispenser de água e gelo na porta (e que ainda serve como ar condicionado para a casa) – são algumas das invenções de grande sucesso. Na cozinha, destacam-se receitas como a produção de dois quilos de muçarela a partir de um litro de leite com amido de milho e a batata “rufus” caseira, uma releitura da Ruffles.

O brasileiro consegue sorrir nas dificuldades, estando sempre atento para encontrar saídas para as dificuldades que se apresentam, mesmo com escassez de recursos financeiros e até de informações técnico-científicas. Como diz a sabedoria popular: “Não adianta chorar pelo leite derramado. Pega um pano e limpa.”

A erudição, com alegria e leveza por Mara Bainy

A erudição, com alegria e leveza: mesmo em ambientes formais, o brasileiro expressa o sorriso, o movimento, o jeito descontraído.
Mara Bainy [by Me]

A música é a linguagem universal. Após assistir a um vídeo de pouco mais de cinco minutos, que mostra legítimos jovens brasileiros (com diferentes ancestralidades) segurando seus instrumentos musicais e tocando com louvor em uma orquestra juvenil, neste caso, a Orquestra Juvenil da Bahia, numa turnê europeia em 2018, minha emoção floresceu. Os jovens brincam, sorriem, até dançam, enquanto apresentam a canção “Tico-tico no fubá” com maestria, a plateia também é sorrisos e aplausos. A música mexe com nossas emoções, e sentir-se leve é apenas uma das consequências de seu movimento, mesmo em um ambiente erudito. Com isso, vou relatar como aprendi a diferenciar formal da formalidade, um aprendizado que mudou minha maneira de encará-los.

Há um tempo eu trabalhei no Japão. Ambientar-se com a cultura nipônica não é fácil. Mesmo estando eu cercada de pessoas do mundo inteiro, devo salientar que estávamos no ambiente nipônico e com pessoas nipônicas. A afirmação da frase anterior até parece redundante, mas não é. O ambiente nipônico é bem diferente das pessoas nipônicas. Minha experiência no Japão deixou isso muito claro, pois como brasileira que sou, estava acostumada a ser descontraída tanto no formal quanto na formalidade. Porém, aprendi o quão equivocada eu estava em manter este comportamento.

O formal é um ambiente sério e impoluto, que pode ou não estar vinculado a uma construção, como por exemplo, um teatro ou um escritório. Já a formalidade é a maneira com que as pessoas se portam no ambiente formal.

É agora que irei ser antagônica, haja vista que estou comparando a formalidade brasileira com a nipônica, dois opostos. Recordo-me de um evento específico: tínhamos um problema enorme e pouco tempo para resolvê-lo. Todos os envolvidos com o tal problema concordaram na realização de uma reunião, assim seríamos vários cérebros pensantes em uníssono. Pela primeira vez em minha vida eu presenciei o que significa formalidade e como ela deve ser encarada. Em suma, em aproximadamente dez minutos resolvemos aquela situação, sem conversas paralelas, sem piadas, sem distrações. Éramos nove pessoas focadas na resolução de uma dificuldade e ponto. Ali, naquele instante, eu aprendi que a formalidade é sim sinônimo de seriedade e comprometimento. E entendi que ter formalidade quando requerida de você é um ato de respeito e consideração.

O ambiente nipônico é muito formal, mas é permitido haver descontração e leveza nele. Presenciei momentos alegres na antessala do meu diretor, bem como em um templo budista. Já as pessoas nipônicas usam a formalidade como segunda pele. Aquela cultura é assim.

Trazer a leveza para um ambiente formal é fácil quando se trata de música. Já vi japoneses descontraídos em uma apresentação de jazz. Canções são caminhos que nos levam para nosso próprio inconsciente. Portanto, a espontaneidade no ambiente formal de um teatro onde uma orquestra se apresenta é uma das maneiras mais sublimes de se demonstrar o quanto a música te envolve.

A questão é que a linha entre a sociabilidade e a inadequação é muito tênue. Nosso povo expressa desinibição e comunicabilidade em ambientes formais, mas o que fica subentendido é como a falta de formalidade/erudição leva o brasileiro a sorrir para qualquer coisa, o que pode ser interpretado como desleixo ou desrespeito, como se o Brasil não fosse um país sério.

Podemos sim ser leves, sorrir, descontrair, mas temos que ser hábeis o suficiente para entender que em alguns momentos a formalidade é necessária e isso não é o fim do mundo, é apenas a etiqueta social de se viver bem. Um comportamento que enaltece a nossa erudição… musical ou não.

Até quando tudo dá errado, dá certo por Gustavo Caperutto da Mota

Quando tudo deu errado

Ora, deu foi é certo!
Pois o brasileiro esperto
Sem ficar injuriado
Procurou deixar por perto
Ali, bem ao seu lado
O jeito matreiro e certo
De um reles condenado

Caveirão subiu a favela;
Quando se viu em apuros,
Saltou por cima dos muros
Em riba do colo dela:
A vizinha a quem deu trela
Nos momentos mais escuros
De conversas na janela

“Te esconde aqui”, ela disse;
Lá foi ele ao quarto amigo
E mesmo sob perigo,
Chamegou-se à Clarice
Mulher doce como o figo
Despiu-se de toda crendice
Do desejo mais antigo

Depois saiu do barraco
Viu seu guarda adiante
Pôs-se ao chão num instante
Deitando-se feito Baco
Satisfeito do rompante,
Ainda que no buraco,
Sorria o bom velhaco.

A força de um povo na simplicidade por Daiane Carrasco

A freira e o sertão

Durante muito tempo convivi com religiosas. Cresci em uma comunidade católica que era assistida por uma congregação, as Irmãs de São José. Passava parte do meu tempo livre, depois da escola, na casa delas. Adorava a biblioteca que tinham na sala. Conversava e aprendia com aquelas mulheres muito diferentes da minha avó e minha mãe, cujas vidas estavam devotadas aos afazeres domésticos. As Irmãs eram mulheres livres, que se dedicavam ao espírito, às causas sociais e à cultura. Uma, em especial, marcou-me muito: Irmã Guiomar Teresinha Chemello.

Irmã Guiomar era inteligentíssima, calma, sábia e com um enorme coração. Viveu anos fora do país, como Provincial de sua congregação. Falava inglês, francês e italiano. Eu, menina, adorava ouvir suas histórias. Um dia, perguntei a ela qual o lugar em que mais tinha gostado de viver. Logicamente, pensei que seria o Vaticano — o sonho de muitos que almejam estar na nata do clero. A resposta surpreendeu-me: ela sentia saudades do Sertão. “Do Sertão?” — retruquei incrédula. Com a sabedoria que lhe era própria, começou a detalhar-me os motivos:

— As pessoas viviam em casas de barro amassado, taquara e palha, sem luxos, com quase nenhum conforto, mas sorriam e sonhavam. A seca levava o pouco que tinham, os roçados de milho e de feijão, principalmente. Mesmo com o sol inclemente e a terra esturricada, prosseguiam plantando, com esperança de que na próxima estação seria diferente e contariam com fartura. Ao final do dia, ainda que as cisternas estivessem baixas, ofereciam-me água para tomar um banho. Tens ideia do sacrifício que é proporcionar um banho para alguém, quando teus próprios filhos racionam os pingos há semanas?

A fala da Irmã tornou-se o combustível das minhas causas. Eu não tinha o direito de ser omissa. Aqueles brasileiros tão simples não eram. O povo, a seu modo, trabalha e resiste. Aos tropeços, prossegue. Partilha. Continua a jornada no seu esperançar. Ela me dizia: “O pessimista é um acomodado.” — mais uma vez, estava certa. Demorei anos para perceber que o desânimo não muda nada.

Quando a consciência social se expande, o mais difícil é escapar das falácias que nos ensinaram a vida toda: “É só se esforçar que a recompensa vem!” ou “Trabalhe enquanto os outros descansam!” ou o clássico “O patrão perde o sono e o empregado dorme!” Não percebemos, mas somos educados para ficar ao lado daqueles que exploram o povo, sendo que cada um de nós (pelo menos quem estará lendo este texto, creio eu) faz parte desse povo.

Incutiram-nos uma ideia vantajosa para as elites: o brasileiro detesta se identificar como pobre. O cidadão tem um carro popular parcelado a perder de vista, mas se revolta contra um assentamento do MST. Sem pestanejar escolhe o lado do latifundiário, ainda que a propriedade privada tenha custado desmatamento, grilagem e a vida de alguns indígenas. O “empreendedor” vende pão caseiro no sinal de trânsito, mas fica pê da vida quando vê uma greve nos noticiários. Tem pena do empresário, amanhã pode ser ele. Que delírio coletivo é esse? Onde foi que a essência do povo mais acolhedor do mundo se perdeu?

O defensável não é a Faria Lima, não é o dólar a cinco reais, não é o deus mercado, não é a cobertura com heliporto. A luta é por água potável, segurança alimentar, educação de qualidade e moradia. O povo não precisa de muito. Ainda que até o pouco lhe neguem, o brasileiro segue encantando pela alegria e persistência.

Sigo, assim como meus conterrâneos, sem lamentos, sem desalento. O mestre Alceu Valença enaltece o pouco, o simples, em seus versos: “Todo o tempo que eu tiver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco.”

Livros Indicados

Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores contemporâneos da nossa literatura, nos deixou dia 30 de agosto. Prestamos uma singela homenagem nessa edição, recomendando alguns de seus livros.

Borges e os orangotangos eternos
Autor: Luis Fernando Verissimo

Publicado originalmente em 2000, Borges e os orangotangos eternos foi o sexto volume da coleção Literatura ou Morte, em que a Companhia das Letras convidou escritores para escreverem sobre outros escritores célebres da literatura mundial ― Luis Fernando Verissimo escolheu Jorge Luis Borges. O resultado é uma verdadeira ode à literatura e à ficção policial, escrita por um de nossos grandes mestres. A história é narrada por Vogelstein, que tem sua pacata vida sacudida pelo destino quando é convidado para um congresso da Israfel Society, formada por especialistas em Edgar Allan Poe. Desta vez a sociedade se reunirá em Buenos Aires, onde, para sua surpresa, Vogelstein conhecerá ninguém menos que Jorge Luis Borges. E, por circunstâncias criadas aparentemente pelo amor à literatura, ele se verá no centro de um crime rocambolesco envolvendo demônios arcanos e os mistérios da cabala. Saiba mais…

As mentiras que os homens contam
Autor: Luis Fernando Verissimo

Quantas vezes você mente por dia? Calma, não precisa responder agora. Também não é sempre que você conta uma mentira, só de vez em quando. Na verdade, quando você mente, é porque precisa. Para proteger o outro ― e, de preferência, a outra. Foi assim com a mãe, a namorada, a mulher, a sogra. Tudo pelo bom convívio social, pela harmonia dentro de casa, para uma noite mais agradável com os amigos. Você só mente, no fundo, para poupar as pessoas e, sobretudo, para o bem das mulheres. Luis Fernando Verissimo, este observador bem-humorado do cotidiano brasileiro, reúne em As mentiras que os homens contam um repertório divertido de histórias assim ― tão indispensáveis que, de repente, viram até verdades. Depende de quem ouve. Depende de quem conta. Saiba mais…

Comédias para ler na escola
Autor: Luis Fernando Verissimo

A dobradinha não podia ser melhor. De um lado, as histórias de um mestre do humor. Do outro, o olhar perspicaz de uma das mais talentosas escritoras do país, especialista em literatura para jovens. Ana Maria Machado, leitora de carteirinha de Luis Fernando Verissimo, preparou uma seleção de crônicas capaz de despertar nos estudantes o prazer e a paixão pela leitura. O resultado pode ser conferido em Comédias para se ler na escola, uma rara e feliz combinação de talentos, indispensável para a sala de aula. A seleção de textos permite ao leitor mergulhar no universo das histórias e personagens de Verissimo e conhecer os múltiplos recursos deste artesão das letras. A habilidade para os exercícios de linguagem ou de estilo pode ser vista em crônicas como “Palavreado”, “Jargão”, “O ator” e “Siglas”. A competência para desenvolver as comédias de erro está presente em “O Homem Trocado”, “Suflê de Chuchu” e “Sozinhos”. A mestria para criar pequenas fábulas, com moral não explícita, aparece em “A Novata”, “Hábito Nacional” e “Pode Acontecer”. A aptidão para resgatar memórias é a marca de “Adolescência”, “A Bola” e “História Estranha”. E, por fim, o dom para abordagens originais de temas recorrentes revela-se em “Da Timidez”, “Fobias” e “ABC”. Saiba mais…

As ironias do tempo
Autor: Luis Fernando Verissimo

Nas voltas e reviravoltas da vida, lá estão elas, as ironias do tempo, o tema da nova antologia de crônicas de Luis Fernando Verissimo. Faz tempo que Luis Fernando Verissimo registra em suas crônicas nos jornais toda a poesia, graça e lógica dos principais eventos do Brasil e do mundo. Pensamentos, desastres, sentimentos, escândalos, está tudo ali, acontecendo em tempo real diante dos nossos olhos. Adriana e Isabel Falcão se debruçaram sobre pilhas e mais pilhas de textos produzidos nos últimos vinte anos para montar esta antologia. O resultado é uma curiosa jornada pelo tempo. Fatos ou comportamentos que pareciam definitivos podem mudar radicalmente; outros impressionam justamente pelo motivo oposto: se mantêm iguaizinhos ao longo de décadas. E nessas idas e vindas que a vida dá, lá estão elas, as ironias do tempo. Saiba mais…

Aventuras da família Brasil
Autor: Luis Fernando Verissimo

Um dos mais respeitados escritores do país, Verissimo adora desenhar e ler histórias em quadrinhos. Calado e muito observador, ele consegue, como poucos, entender e traduzir o universo da família brasileira. As tiras de Aventuras da Família Brasil reúnem alguns de seus personagens mais engraçados. Um pai trabalhador, mas que tem a profissão ignorada, uma mãe dona-de-casa, um filho adolescente, um neto pequeno e uma neta de colo, compõem essa divertida família. Verissimo faz graça das situações mais complicadas – que todo mundo, ou quase todo mundo, já viveu dentro de casa, ao driblar problemas financeiros, definir ética comportamental ou explicar para os mais novos como funcionava o mundo na época em que ainda não havia computadores. Tudo isso sem deixar de lado seu incomparável senso de humor, é claro. Saiba mais…

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Daiane Carrasco Chaves

Editora

Daiane Carrasco
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Marcelo Elo Almeida
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Autor do Livro Nhorrã

Escritora e Sexologa Christiane Andrea

Christiane Andréa
Sexóloga, Mestre em Educação

Ativista na temática da autoproteção e prevenção das violências contra crianças e adolescentes.

Escritora de literatura Infantojuvenil e Educadora em Sexualidade, é autora do primeiro livro nacional a atender a Lei 14. 164 de 2021 sobre a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica, e institui a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher.

Atualmente é Coordenadora da Comissão de Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil de Santos.

Livros Publicados:
Vamos Conversar? Sobre Violência Sexual Infantil, Vamos Conversar Mamãe? (e-book), Por Todas as Flores do Mundo – Uma Oficina Poética de Prevenção Para Meninas.

www.papaleseditorial.com.br/christiane-andrea

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Igor Pires Leon
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Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.

editoranauta.com.br
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Escritora, Pedagoga, Comunicóloga e Ghostwriter

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Mara Bayni
Escritora, Aromaterapeuta e Terapeuta Holística

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Autora dos Livros 240 horas, Godheid, Sangre de Diosa e Código de Sangue e Honra.

Escritora Mara Bayni

Gustavo Caperutto da Mota
Autor e editor

Membro da Academia Itanhaense de Letras e organizador do CENI – Clube de Escrita Nós de Itanhaém.

Responsável pela Noz Editoria – @nozeditoria Instagram: @mota.gus

Olga Carrasco Chaves
Ilustração e Fotos

Estudante, nadadora, capoeirista e ilustradora. Amante da arte.