Edição 28 – Milton “Bituca” Nascimento – Dezembro 2025

Edição 28 – Milton “Bituca” Nascimento – Dezembro 2025

Introdução | Nos bailes da vida | Maria, Maria | Ponta de areia | Encontros e despedidas | Coração de estudante | Bola de meia, bola de gude | Rouxinol | Nada será como antes | Fé cega, faca amolada | A festa | Livros Indicados | Corpo Editorial | Escritores da Edição

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Milton Silva Campos do Nascimento. Milton Nascimento. Bituca. Como defini-lo? Dizem que um homem se mede por suas obras. Então, sua dimensão é infinita. Trata-se de um dos maiores compositores em Língua Portuguesa. Além da vasta produção musical, tendo lançado 32 álbuns de estúdio, Milton destaca-se pela qualidade das suas letras. Tem para todos os gostos: frases estampadas em camisetas, como “A hora do encontro é também despedida.” ou “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves.” e até as mais profundas, como: “O amor, enfim, ficou senhor de mim/ E eu fiquei assim, calado, sem Latim/ Coisas da vida.” Como não amar Bituca?

Milton Nascimento

O Literato Dente-de-Leão tem homenageado compositores na edição de dezembro (em 2024 foi a vez do Chico Buarque, em comemoração aos seus 80 anos). Neste ano, em razão do encerramento da carreira e dos problemas de saúde de Milton Nascimento, fica o nosso registro do tamanho apreço que temos por este baluarte da cultura brasileira. Escolhemos algumas canções do nosso estimado Bituca para compor o repertório de contos dessa edição.

Boa leitura!

Nos bailes da vida por Igor Pires Leon

Por vezes, o silêncio da plateia, alheia; por vezes, aplausos tímidos. Tudo bem, eu não esperava algo diferente. Eu cantava, era isso que eu queria fazer. A saudade de casa, dos meus pais, dos meus irmãos, dos amigos, batia forte, mas não pensava em voltar.

Ganhei a estrada de terra, levando comigo o meu inseparável violão, pegando carona de um lugar a outro, descobrindo novas paisagens, parando em postos de gasolina, em pequenas churrascarias de beira de estrada, oferecendo o meu trabalho, tocando, cantando as minhas velhas canções, ou as novas que fui compondo pelo caminho, ganhando um trocado aqui, outro ali.

Escrevi com meu amor pela vida. Foi assim, tocando meu violão aqui e acolá, nas garagens onde aconteciam os bailinhos, que eu me realizava, sentindo uma enorme alegria ao ver as pessoas cantarem junto comigo, prestando atenção àquilo que eu dizia.  Depois, quando a garagem silenciava, sentia um vazio danado. Eu percebi que não cabia mais naquelas festinhas. Eu precisava ganhar o mundo, ser ouvido por outras pessoas, ganhando dinheiro ou não, pois o que me interessava era levar minhas canções para os recônditos da terra sem fim. Afinal, o artista tem que ir aonde o povo está.

Por todos os lugares em que passei, deixei minha marca, minha música. Conheci gente boa, gente má, tive amores, desilusões. Não desanimei. Nunca olhei para trás com uma ponta de arrependimento, querendo voltar ao que eu era. Jamais. Cruzei com pessoas que pensavam como eu, que tinham os mesmos sonhos, gente de longa estrada, sempre lutando pelo sonho de ser um artista.

Cantar era buscar o caminho que vai dar no Sol, então…

Maria, Maria por Daiane Carrasco

Maria trabalha de empregada doméstica. Passa a semana dormindo no trabalho, no quartinho dos fundos. Embora a lei estabeleça um horário de descanso, das oito da noite até a manhã do dia seguinte, Maria é “da família”. Não custa nada esquentar um pratinho para o filho do patrão ou fazer um chazinho quente para aplacar a insônia da patroa.

Sente-se grata por poder levar para casa as sobras do jantar de sexta-feira. O filho Julinho pode visita-la quando precisa ficar em feriado no meio da semana. Quarta-feira é o dia de trocar e lavar a roupa de cama. Independência, Finados, Natal – se cair na quarta-feira, Maria trabalha. Sagrado é o direito dos patrões aos lençóis e fronhas cheirosos e limpos. Imagina, folga na quarta-feira! Maria não é dessas que prefere viver de auxílio do governo a trabalhar. “Quer moleza? Senta no pudim.” – Ah, a sabedoria popular.  Moleza, que nada.  Há um apagão de mão-de-obra nesse país! E a classe média, como fica? Ela sorri, canta e põe a roupa no varal, bem branquinha. Orgulha-se do seu capricho.

Maria precisa de férias. Quer ver a mãe no interior da Paraíba. Não a vê desde que saiu do casebre para fazer a vida no Rio de Janeiro. A patroa disse que ela pode ir, mas que não vai pagar pelos dias parados. Sabe como é, trocaram de carro recentemente e terão que acertar com uma diarista enquanto Maria estiver viajando. São muitas despesas. Ainda mais com o piscineiro cobrando R$ 400 a cada semana pela manutenção da piscina, um roubo! Julinho limpa de graça. Ganha bola de futebol dos patrões todo o Natal, não faz mais que a obrigação. Maria resolveu que a mãe no sertão pode ficar para o ano que vem.

Os sonhos Maria vai adiando. Tem fé que um dia vai realizar todos eles. Um curso de inglês para Julinho. Um abraço na mãe. Uma obra no puxadinho. As vizinhas falam para ela procurar uma casa em que paguem melhor. Mas ela não pode trocar o certo pelo duvidoso. O que seria dela em outro emprego?  Ouve-se cada história por aí. Tem patrão que nem paga, que só dá comida e acha que faz muito. Maria tem sorte. Ali é tratada como se fosse da família.

Ponta de areia por Marcelo Elo Almeida

Ponta de Saudade

De Belo Horizonte a Governador Valadares, oito horas de ônibus. Chegada. Café. Espera. Revista. Espera. Banheiro. Espera. De Governador Valadares a Teixeira de Freitas, doze horas. Café. Espera. Banheiro. Espera. Revista. Espera. De Teixeira até Caravelas, mais duas. Mais espera. Mais café. Mais revista. E ainda faltava o último trecho até aquele lugar perdido no tempo e que só aparecia no mapa por ter sido a estação final da ferrovia Bahia-Minas. Corpo moído, dor de cabeça, suor, roupa suja: foi pra isso que virei jornalista? Na volta eu vou matar o Silveira.

— Chegou, moço. Ponto final. Mal lhe pergunte, o que o senhor veio fazer nesse fim de mundo?

— Eu também quero saber.

O único passageiro desce os degraus empoeirados, franze o nariz, ajeita os óculos embaçados e passa a mão pelos cabelos lisos e longos. Tenso, procura um bar ou uma lanchonete, premido pela sede e pelo aperto da bexiga. Tudo fechado, hora do mormaço e do sono dos moradores. Só mesmo a sombra da amendoeira na praça para amenizar o sol de praia do verão baiano. Alivia-se ali mesmo, tendo por única testemunha um cachorro estirado na sombra, muito mais sonolento do que vigilante. Abre um sorriso, não de alívio, mas porque à sua frente está a imensidão do mar, mais amado pelos mineiros do que pelos peixes. Caminha um pouco pela areia, mas logo volta para a praça. Vento parado em algum lugar longe dali. Espera.

Aos poucos, o pouco comércio abre suas portas. Consegue uma garrafa d’água e um sanduíche de mortadela. Recobra as energias e caminha pela vila de chão batido. Casas baixas, muitas delas geminadas, pinturas esmaecidas e rebocos aparentes. Possuem apenas uma porta e uma janela que também vão se abrindo depois da sesta.

— Tarde!

O forasteiro ia passando direto sem o cumprimento. Talvez achasse que aquele senhor, cotovelo no batente da janela e cabeça escorada por uma das mãos, fizesse parte da paisagem.

— Opa! Boa tarde, senhor. Mal lhe pergunte: por que todos abrem portas e janelas se até agora há pouco estava tudo fechado?

— É o vento que sopra depois das três, seu moço. Antes disso, só calor. Mal pergunte: qual sua graça?

— Perdão, meu senhor: Fernando. E a sua?

— Pedro Basto, a seu dispor, mas pode me chamar de Pedro Maquinista – apresentou-se, um boné puído onde se lê Rede Ferroviária Federal.

— Aqui não tem criança não, seu Pedro?

— Criança precisa de pai e mãe e pai e mãe precisa de trabalho. Aqui não tem trabalho, seu Fernando. As crianças que tinha cresceram e foram embora também. Ficou nós, os velhos – e volta a segurar a cabeça com a palma da mão desocupada, boné balançando ao vento da tarde.

— E a estrada, seu Pedro? Muito tempo que foi desativada?

— Sim, já faz alguns anos.

— Esses trilhos… onde foram parar os trens? Levaram embora?

— Vem comigo – o maquinista assume outra voz e outro olhar.

Fernando entra na casa. Numa parede, uma fotografia pintada de um casal jovem; em outra, uma imagem de Jesus com o coração aparente, no centro do papel. Vai avançando sobre o piso um tanto esburacado, um corredor muito escuro e bem mais comprido do que ele supunha para uma casa modesta como aquela. Vai seguindo instintivamente seu guia, por vezes um desnível do chão. A luz intensa que vem do fim do corredor o cega, mas percebe que saiu da casa.

Ao se acostumar com a claridade, vê um homem sorridente à sua frente, rejuvenescido, gestos largos, braço direito levantado, caminhando para o centro do terreno. Sob a sombra de uma mangueira imensa, a máquina descansava, envolta por um gramado salpicado de frutos derrubados pelo vento nordeste. Em um movimento enérgico, sobe alguns degraus de uma estrutura preta e lança um aceno para o público que vem ver a chegada do trem:

— Olá, seu Manoel Padeiro! Separe uma daquelas broas pra mim. Moça bonita, chega na janela, tem presente de seu namorado lá de Caravelas! Vem, dona Mariana, vem pegar suas encomendas! Seu Zé da Bodega, eu trouxe um carregamento de branquinha das boas! Rosário, minha patroa, estou chegando! Para todos eu trago cheiro de terra molhada lá das Alterosas. Sintam!

E o boné, antes um pêndulo movido a vento, agora era agitado de um lado para o outro pelo braço que antes aparava uma cabeça. Sorriso largo, toca a buzina enquanto o trem vai parando aos poucos, no resfolegar da máquina esbaforida. Peito estufado, desce os degraus limpando o uniforme empoeirado, enquanto as crianças fazem festa ao seu redor.

— Senhor Fernando, faça o favor de embarcar. Partiremos dentro de cinco minutos. O trem da Ponta de Areia nunca atrasa! — e o maquinista, sorridente, devolve-lhe o bilhete destacado.

Fernando apanha o seu bilhete e embarca de volta pelo corredor comprido e escuro, meditativo. A sua matéria está pronta, Silveira.

Fernando Brant foi
à Ponta de Areia
no início dos anos 70,
a trabalho para a
revista Cruzeiro.
Alguns anos depois,
a visita foi fonte
de inspiração para a
sua parceria com
Milton Nascimento.

Encontros e despedidas por Daiane Carrasco

Medelin, 03 de março de 1976.

Minha amada Johnny,

Ontem estive em uma aldeia Muisca, a poucos quilômetros de Medelin. É um povo extraordinário, que vive em harmonia com a floresta. Os conflitos com fazendeiros trouxeram-me aqui. Não houve mortes, mas tivemos feridos à bala. Por que a vida é assim, Johnny? Vejo-me andando em círculos, numa eterna repetição. Como outrora na Bahia, os poderosos não se constrangem em atentar contra a vida dos mais humildes. E eu, médico, reservo-me a remendar ambos os lados. Afinal, não sou juiz.

Você sabe que eu sou o mais ferido de todos. Embora meus machucados não sejam aparentes, sinto-me abatido e moribundo. Mas não é hora de reclamar do que não somos capazes de mudar. Resisto, na esperança de que o meu exílio não dure para sempre. Os militares não continuarão no poder. O povo brasileiro há de reaver as rédeas do país. Assim creio, pagando minhas dívidas com Santa Edwiges, em cada vida salva, como você faz, Johnny.

À noite, minha companhia é o estridular dos grilos. Eles cantam alto. Imagino que chamam por você, assim como eu, que sonho em deitar ao seu lado e sentir o cheiro amendoado dos seus cabelos, ou em ouvir suas risadas. É a sinfonia das matas colombianas, mística e persistente. O cantarolar dos animais noturnos é por nós. Não é um luto, não é um lamento, é um hino ao reencontro.

Por fim, não posso deixar de perguntar da nossa menina. Como ela está? Já senta sozinha? Engatinha pelo chão? De todos os fardos, não poder vê-la crescer a cada dia é o mais pesado. Também Tom está definhando pela ausência de James. Somos pais apartados dos filhos. Como alguém pode defender esse regime que oprime, separa e destrói vidas?

Não se preocupe comigo. Como você mesma diz, sou o Deus do Trovão dos índios, capaz de domar até mesmo as piores tempestades.

Eternamente seu, Ozzy.

*******

Caravelas, 22 de abril de 1976.

Querido Ozzy,

As cartas demoram a chegar. Entristece-me o fato de passarmos longas semanas sem notícias um do outro. Cada vez que o carteiro chega e me entrega a correspondência, vasculho entre os envelopes. Quando leio seu nome entre os remetentes, o tempo para. Querido, lembro-me do seu ingênuo desejo, de encontrar um amor que não esfrie. Faço-te duas promessas.

A primeira, de prosseguir ao teu lado nas estradas empoeiradas do mundo, aliviando males. Seguirei amando-te, acolhendo-te em mim, a cada reencontro que a vida nos trouxer. Talvez não seja o suficiente para realizar os seus anseios, mas é o que eu posso oferecer de bom grado.

A segunda, é criar nossa filha para que ela seja tão cabeça dura quanto eu, ou melhor, como nós. Ângela senta, segura objetos com firmeza, move-se em direção a sons e àquilo que desperta o seu interesse. Ela está atingindo todos os marcos de desenvolvimento para a sua idade, é alegre e saudável. Falo sobre você todos os dias, não se aflija.

Em Caravelas, as melhorias em saneamento básico permanecem nulas. O esgoto corre a céu aberto ao largo das casas. Cosme e Crespo ajudaram-me em um mutirão para a construção de banheiros comunitários. Não é a melhor solução, mas diminuímos os pontos de contaminação da água. Breno e o prefeito quiseram impedir as obras. Eu os convenci de que era melhor oferecer um engodo do que espalhar descontentamento entre a população. Às vezes, sinto-me cúmplice desses canalhas, acobertando suas infâmias. Talvez devesse aderir às táticas de guerrilha e lutar, mas penso no custo em vidas. São decisões contraditórias, difíceis. É como um jogo de xadrez, Ozzy. Entrega-se os peões e os cavalos para chegar-se ao xeque-mate.

Santa Edwiges sabe que ainda devo-lhe muito, mas continuo a quitar-lhe os débitos salvando vidas. Agradeço por ajudar-me com seu amor ao próximo e à medicina. Aqui não escuto os grilos tanto quanto você, mas vejo a lua e as estrelas. As luzes celestes nos aproximam porque brilham sobre os céus de Medelin com a mesma intensidade. Embora os lençóis estejam frios do seu lado da cama, deito-me no seu lugar todas as manhãs antes de levantar. É um tributo contínuo e respeitoso, até o dia em que você esteja aqui, com seu calor.

Imperfeitamente sua, Johnny.

* “Encontros e despedidas” foi escrita durante os anos de chumbo e lançada em 1985, e faz referência aos exilados. O texto é alusivo ao exílio do personagem Ozzy, do romance “Ozzy e Johnny”, da autora Daiane Carrasco Chaves.

Coração de estudante por Marcelo Elo Almeida

— Aline, você pode me ajudar com essa muda aqui?

— Claro, pai.

A chácara não chegava a dois alqueires, mas ao longo dos anos acabou tornando-se o viveiro de plantas mais conhecido da região. Coqueiros, samambaias e plantas ornamentais rodeavam toda a casa, onde residiam. Ficava numa encosta que outrora possuíra uma floresta densa, integrante da Mata Atlântica mineira. Cana, café, boi, descaso – tudo tinha levado ao empobrecimento do solo e ao visual de morro pelado, verde desbotado. Desde cedo Anderson preocupou-se em reintroduzir plantas nativas no alto da encosta e mostrar pra filha um outro modo de viver, trabalhando com mudas. Com o tempo, uma mina brotou e um tímido rego formou-se. Novas plantas, agora também frutíferas, trouxeram maritacas, guaxos e coleiros a repovoar o morro pelado. A mata tinha voltado, brotado num verde pujante, de esperança. Até pequenos roedores viviam por lá atrás de frutos.

— Pai, preciso te falar uma coisa.

— Diga, minha filha.

— Eu decidi aceitar o emprego naquele projeto de agrofloresta lá em Goiás.

Anderson continua sem levantar a cabeça, atento ao coqueiro que ele tenta ajeitar no vaso. Demora um pouco para responder, esforçando-se para destravar o nó da garganta:

— Claro, minha filha. Eu vi na página deles. O negócio é bem estruturado, sério, grande, vale muito a pena. Você está com vinte e dois anos, acabou de se formar, tem que achar seu rumo. Afinal, você se formou pra quê, né? O mundo precisa desses projetos, eles é que nos guiam pro futuro melhor…

— Eu vou poder ajudar a desenvolver a agricultura sem agredir o meio ambiente, milho plantado na sombra dos ipês, já pensou? Várias famílias estão engajadas e eu acho que a minha ajuda vai ser importante. E a produtividade é bem elevada, viu? Hortas, leguminosas, produz de tudo. Já fui estudante, agora tenho que trabalhar para ajudar a melhorar as sementes e o manejo. Alimento sem agrotóxico, sem derrubar árvore nem espantar os animais. 

— Siga seu coração, ele é puro. Leve essa pureza pro mundo, meu amor.

— Goiás é longe, mas nem tanto, vou sempre estar por perto. Sou do mundo, pai, mas meus pés estão plantados aqui.

Bola de meia, bola de gude por Fernando Buzzetto

Mariana, de doze anos, chegou da escola agitada. Correu até a varanda, procurando por seu avô Gustavo.

— Vô, vô! Eu ouvi uma música na escola que me fez lembrar você.

— Que bom, querida! Gosto de ser lembrado, principalmente por alguém como você.

Antes que ele pudesse perguntar qual era a música, a menina, empolgada, se pôs a cantarolar.

“Bola de meia, bola de gude

Há um menino, há um moleque

Morando sempre no meu coração.”

Gustavo cortou a cantoria da menina e perguntou o que ela aprendeu sobre aquela música. Mariana, ainda excitada, começou a falar tudo que absorveu na aula de Musicalidade. Contou quem eram os autores, quando a música foi composta, que foi regravada por uma banda, sem dizer o que o avô queria saber, ou seja, qual a relação que a sua neta fez da música com ele. Então se viu obrigado a perguntar.

Mariana tentou explicar, mas se enrolou toda. A única mensagem que fez sentido para a menina foi que o avô conservava um jeito moleque, um verdadeiro “crianção”, muito diferente dos avôs das suas amigas.

Gustavo pensou em encerrar a conversa, mas achou melhor explicar a letra da música. Então, perguntou se a neta queria saber mais. E foi assim que a conversa deu errado.

Diante da sua afirmativa, começou: “Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. Explicou que se apoiar na criança que um dia você foi pode ser muito útil para um adulto diante dos desafios da vida. Mariana ficou calada por um tempo, pensando. De repente, pôs-se a falar:

— Não é bem assim. Nem toda criança é boazinha.

— Até concordo com você, mas é uma maneira poética de expressar a inocência, alegria e pureza de uma criança, como um valor que deve permanecer com a pessoa.

— O Daniel da minha sala sente prazer em fazer ou falar coisas que ofendam os outros.

O avô percebeu que não conseguiu convencer a neta, pois a menina analisava casos individuais e não no sentido genérico. Portanto, voltou ao início da conversa:

— Você não disse que mantenho viva a criança que um dia eu fui?

— Sim, mas você foi uma criança boa.

            Eles passaram conversando por um longo tempo e a cada colocação do avô tentando mostrar que a letra da música enfatizava a preservação da simplicidade e os valores aprendidos na infância, Mariana contestava.

— “Não posso aceitar qualquer sacanagem ser coisa normal”. Existem crianças sacanas.

— Entenda, Mariana, que o autor se refere à maioria das crianças. É uma maneira genérica de se manifestar. Não seja tão literal.

Só então a menina começou a entender e concluiu:

— Significa que as crianças más, mesmo ainda com pouca idade, já deixaram os valores aprendidos na infância para trás?

— Sim. É isso.

Foi desta maneira que Gustavo conseguiu fazer Mariana entender que uma poesia, letra de música ou pensamento não devem ser analisados literalmente. Mariana compreendeu que nesses casos os autores valorizam os princípios gerais.

Em “Bola de meia, Bola de Gude” Milton Nascimento e Fernando Brant exploram a simplicidade da criança em resolver os problemas. Ele voltou a explorar o verso “não posso aceitar que qualquer sacanagem seja coisa normal” mostrando que muitos homens adultos justificam atitudes antiéticas, imorais e até ilegais como coisa normal, por desprezarem a criança que um dia foram.

A menina abraçou o avô e comentou:

— Ainda bem que sou sua neta, pois você conseguiu manter a criança dentro de você.

Em seguida, saiu cantarolando:

“Há um passado no meu presente

Um Sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra

O menino me dá a mão…”

Rouxinol por Célia Félix

Havia muito tempo que ela não cantava. Não porque tivesse perdido a voz, mas porque o coração, cansado de esperas e despedidas, calara-se. Os dias passavam lentos, como folhas secas levadas pelo vento. Até que, numa manhã cinzenta, um canto atravessou o silêncio.

Era um som doce, invisível, vindo de longe, como se o próprio céu soprasse esperança pelas frestas da alma. Ela seguiu o som, curiosa, até o quintal. Lá estava ele — o rouxinol — pequeno, mas inteiro, cantando como se o mundo não fosse feito de dor.

A mulher sorriu pela primeira vez em meses. O pássaro a fitou, e por um instante, ela sentiu que ele sabia de tudo: das noites insones, das lágrimas contidas, da saudade que morava em seu peito. Então o canto mudou. Não era mais apenas música, era cura.

O rouxinol cantava o que ela não conseguia dizer. Cantava as lembranças, os amores que se foram, o medo de nunca mais florescer. E ao ouvi-lo, ela percebeu que algo dentro dela também queria voar.

Dias depois, o rouxinol se foi. Mas deixou seu canto pousado dentro dela. E quando a tristeza ameaçava voltar, bastava fechar os olhos e o canto recomeçava.

Nada será como antes por Karine Souza e Pousas

— Vai ser um passeio rápido. Vamos! — Marília sussurrou para Ana, sua filha de 2 anos.

— O papai não vai, mamãe? — perguntou Ana com os olhinhos brilhando.

— Não, querida, ele ainda está tomando banho, se esperarmos por ele, nós vamos perder o carro do picolé. — respondeu a mãe enquanto enchia as mochilas com o máximo de roupas e brinquedos da filha.

Pedro, seu filho mais velho, chegou no quarto. Caminhava pé ante pé.

— Vamos, mãe. — sussurrou o garoto de 11 anos — Se o pai sai do banho e descobre, aí a gente está é morto.

— Leve sua irmã lá para baixo. Só vou pegar um dinheiro que guardei na lata de café.

Por um tempo infinito, Marília acompanhou aquele garotinho ainda tão pequeno se forçando a ser maior, andando cauteloso entre estilhaços e farpas provenientes de um comportamento tóxico.

Enquanto se esgueirava pela casa, Marília se despedia de cada pedaço: na sala, se lembrou do primeiro dia em que chegou ali, com seu vestido de noiva e muitos sonhos. A sujeira acumulada no sofá contava camadas de histórias, nem todas tão felizes assim.

Dinheiro em mãos e aquilo tudo virou passado. Marília suspirou aliviada quando alcançou a rua com os filhos. O suor daquele fim de tarde de verão pregava roupas e cabelos no corpo. A chuva que caíra há poucos instantes aumentou ainda mais a umidade do ar. Os pés com chinelos, um de cada cor, contrastavam com uniformes e outras roupas de trabalhadores que retornavam para suas casas.

Os três entraram no ônibus vazio, fazendo o trajeto oposto ao da maioria dos trabalhadores no final do dia. Eles seguiam da periferia para a cidade.

Desceram alguns bairros antes do centro. Um músico com seu violão, sem vestígios de um chapéu ou algo para coletar gorjetas, tocava para o mundo. Passos apressados o ignoravam completamente.

Marília parou. Era uma voz doce e suave. Cada parte de seu corpo foi enlevado pela melodia. Ali sua alma foi se lavando calmamente, cada pedacinho. As crianças contemplavam os dedos dele deslizando pelas cordas. Era a primeira vez que assistiam ao vivo a magia do som sair de um instrumento.

Assim, eles acompanhavam aquela conversa. Os dedos do músico pediam e o violão falava exatamente o que precisava.

— É muito bonito. — disse Pedro.

Marília pegou seu dinheiro e com orgulho depositou uma quantia generosa aos pés do músico. Este não parou de tocar nem coibiu o ato daquela mulher. Sorriu e continuou a embalar o ambiente com harmonia.

Sem família na cidade, os desafios estavam só no início. Naquela noite de incertezas, Marília, Pedro e Ana seguiram sem rumo pelas ruas.

Passo firme em direção ao desconhecido, Marília ignorou a hostilidade do mundo e adentrou para o caminho que ela desenharia a partir de então.

Fé cega, faca amolada por Mayara Beani

Molhar a pedra

Acender um incenso e uma vela branca

Escolher seu lado à ocasião

Um Santo

Estudar a lâmina e sua angulação

Queimar um Palo Santo

Como quem penteia os lençóis

Alisar a pedra com a lâmina

Copo de café, gole de pinga, doce no portão

Um movimento fino, contínuo

Vassourinha e água benta

Deslizando sobre a pedra

Afagar cuidadosamente com a ponta dos dedos

Cordão de contas, terço, trevo, escapulário

Testar o fio

Patuá, badulaque

E repetir o ciclo,

Terço e japamala

Até obter a faca afiada.

Strop e chaira não amolam…

Realinham!

Dente de alho no bolso e benzedeira

Reza de vó ainda é a reza mais forte!

Santo nenhum faz milagre de véspera

Ele te encontra no caminhar

Teu corpo é teu melhor amuleto

Atento e forte

No bolso o dente de alho e o patuá da rezadeira

Nas mãos, as chaves entre os dedos

Mães empunhando seus apitos

Localização compartilhada…

Atenta e forte! Mas muito, muito tranquila

Vai ter, vai ter, vai ter que ser!

44 horas e jornada tripla.

Já não espero aquela madrugada, não temos tempo…

O milagre da multiplicação do quilo de moída

Transmutação, amor paixão e força

Deixar a tua luz brilhar, ter olhos firmes!

Tu és a tua melhor reza!

A luta não acabou

Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranquilo

Reza de vó, faca afiada, e fé na caminhada!

Muito tranquilo!

A festa por Sérgio Fernandes

Há anos não visitava meu avô viúvo no interior de Minas. O velhinho era gente boa, mas a vida atribulada da cidade grande fazia com que a presença fosse substituída por telefonemas, confesso que também raros. Até que um dia, num feriado prolongado, tomei um ônibus de São Paulo e fui até Belo Horizonte. Respirei fundo e embarquei em outro até Dona Euzébia, município com seis mil habitantes.

Meu avô, seu Abílio, vestiu a melhor roupa e foi me buscar na estação rodoviária. Me esperava com a sua sandália de couro, calça social cinza e camisa branca, portando seu chapéu de aba curta em mãos, muito elegante. Ele deve ter recrutado todas as velhinhas da vizinhança para arrumar a casa e preparar as melhores comilanças mineiras para me receber. Eu, gordinho, me fartei de torresmo e pão de queijo. Não tive coragem de reclamar das longas horas de estrada até chegar ali, tampouco da monotonia de Dona Euzébia, cuja média etária é de 70 anos.

Comemos, conversamos, rimos. Tomei um banho e me preparava para deitar cedo, conforme os costumes do meu avô.

— Não, meu neto. Hoje é sexta-feira. Gente jovem tem que sair!

— E eu vou sair aonde, vô?

Foi quando o coroa se aproximou da janela e me apontou a rua que dava na praça. Mesmo sem nenhuma vontade, me pus a caminho. Segui o fluxo de pedestres e parei em frente a um galpão de madeira. Espiei para dentro. Vários casais dançavam. Em um palco improvisado, tocava-se música ao vivo, agradável. Entrei. Sentei no balcão. Pedi uma bebida. Vários locais se achegavam, perguntavam se eu era o neto do seu Abílio. Gentis e repetitivos, mas é a vida. Depois, começaram a insistir para que eu tirasse alguma mulher para dançar. Desconversava. A simples contemplação da festa não era suficiente.

— Dança, vai. – Era o suprassumo da boa-vontade que soava como chateação para quem só pretende passar o tempo até ir embora pra sua vida urbana, a salvo dos seis mil habitantes de Dona Euzébia.

Sem saber o que dizer e não querendo ser rude, carteei que só dançaria se fosse com uma moça que estava cantando uma música da Marisa Monte. Ela estava ocupada, interagindo com os músicos e entregando uma bela performance com sua voz afinada e presença de palco. Era a mulher menos disponível da festa. Para minha surpresa, começaram a gritar em coro:

— Ô Mariana! O neto do seu Abílio qué dançá c’ocê!

Eu queria me enfiar debaixo de um banco! Não era minha intenção dançar com ninguém. Na real, só saí de casa por insistência do velho. Ela sorriu, continuou cantando. Quando a música acabou, recebeu os aplausos e veio na minha direção. Vestia um vestido de algodão florido, típico das mulheres do interior. Tinha um cabelo volumoso, encaracolado, pele morena e olhos verdes. Conforme ela se aproximava, pé por pé, sentia uma certa intimidação. Pude perceber os músculos dos braços e das pernas bem definidos, como se ela praticasse exercício com frequência. Encolhi a barriga. Chupei o umbigo pra dentro das calças.

— Mariana, muito prazer.

— Luciano, o prazer é meu.

Fiquei constrangido, desculpei-me pelos gritos, disse que ela poderia voltar ao palco e continuar cantando. Mariana sorriu, disse que tudo bem, que era o trabalho dela. Esquivei-me, afirmei que não estava acostumado com esse tipo de “profissional”. Ela gargalhou.

— Não “esse” trabalho, Luciano! Eu digo dançar. Eu curso Dança na UFMG.

Noooossa! Eu quis morrer! Como é que eu dou uma bola fora da órbita da Terra desse jeito?! Sorte que ela levou na esportiva. Posicionou-me como um cavalheiro deve conduzir uma dama. Ensinou-me o básico do básico. Fui. Pisei no pé dela tantas vezes que pensei em desistir. Mas não. Lá pela terceira música, peguei o jeito. Aquele olhão verde fitando o meu. Eu me derreti como picolé em dia de praia. Quando percebi, a festa estava vazia. Tinha todo mundo ido embora. Só estávamos nós dois e os músicos.

Despedi-me dela. Não queria. Pra mim foi mágico. Pra ela, talvez não tivesse sido. E se fosse? E se…? O macho de eguinho ferido me travou. Poderia ter dito tanta coisa. Calei. Dormi remoendo a sensação daquelas pernas entre as minhas. Um desejo horizontal não realizado.

Voltei a Dona Euzébia muitas outras vezes, mas nunca mais a encontrei. Numa dessas, tocava Maria Rita interpretando “A festa”, do Milton: “Me prende, me força, me roda, me encanta/ Me enfeita num beijo.” A lição foi dura. Há de se ter coragem para enfeitar uma mulher de beijos.

Livros Indicados

Nesta edição, escolhemos obras da grande Cecília Meireles (1901 – 1964)! Uma das maiores escritoras brasileiras merece ser celebrada!

Romanceiro da Inconfidência
Autora: Cecília Meireles

Os poemas aqui reunidos – cada qual com vida própria – formam um longo e único poema, lírico e épico ao mesmo tempo em que conta a história de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira. Elaborado por meio de uma profunda pesquisa, a conspiração revolucionária de poetas é recriada com maestria pela imensa poeta Cecília Meireles. A mim, o que mais me doera, se eu fora o tal Tiradentes, era o sentir-me mordido por esse em quem pôs os dentes. Mal-empregado trabalho, na boca dos maldizentes! Saiba mais…

Ou isto ou aquilo
Autora: Cecília Meireles

Publicado pela primeira vez em 1964, o livro é um clássico da literatura infantil brasileira. E desde seu lançamento, vem conquistando gerações de leitores. A autora convida as crianças a se aproximarem da poesia, brinca com as palavras, explora a sonoridade, o ritmo, as rimas e a musicalidade. Cecília Meireles resgata o universo infantil permeado por perguntas imprevisíveis, monólogos, comparações incomuns, fantasia e imaginação. Ela cria um universo encantador, a partir de recursos que o gênero e a língua lhe proporcionam. Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares! Saiba mais…

Janela Mágica
Autora: Cecília Meireles

Lançado esse ano – 2024

Janela Mágica é uma delicada coletânea de crônicas que convidam o leitor a perspectiva da dimensão poética do olhar e da alma terna e talentosa de Cecília Meireles sobre a condição humana. Aqui a poeta nos conta sobre a relação do homem com os animais, sobre o desmatamento urbano, o esvaziamento do sentido do Natal. Saiba mais…

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Corpo Editorial

Daiane Carrasco Chaves

Editora

Daiane Carrasco
Oceanóloga. Escritora.

Instagram: @daiane_carrasco

Autora do Livro Ozzy & Johnny.

Designer e Criação

Sérgio Fernandes
Consultor de T.I. & Terapeuta Corporal.

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Autor do Livro Zé das Campas.

Designer

Larissa Ciol
Estudante de Engenharia de Alimentos.

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Escritores da Edição nº 28 de 2025 – Milton “Bituca” Nascimento

Igor Pires Leon
Escritor

Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.

editoranauta.com.br
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Marcelo Elo Almeida
Escritor

Instagram: @marcelo.eloalmeida

Autor do Livro Nhorrã

Fernando Buzzetto
Formado em Administração. Leciona no Ensino Superior e Escritor

Instagram: @escritor.buzzetto

Célia Félix
Escritora e Poetisa

Graduada em Pedagogia e Enfermagem.

Autora do livro “Relatos de um diagnóstico”- Da dor à superação (12/24)

Poemas publicados em quatro antologias.

Membro da Comunidade Efêmera Sintonia, no Instagram, onde apresenta as Lives.

Instagram: @celiafelixramos

Karine Souza e Pousas
Escritora, Pedagoga, Comunicóloga e Ghostwriter

Instagram: @karinecsouza

Mayara Beani
Jornalista, escritora e produtora cultural

Nascida no Grande ABC em 1987, teve seu primeiro trabalho publicado através do concurso de redação “Tirando de letra” (Ecofuturo e Companhia Suzano, 1999). Presente em diversas coletâneas e concursos de contos e poesias, publicou seu primeiro livro em 2017 – “Qui Qui – sobre livros e pássaros” (Editora Adonis, 2017). Cogestora do grupo “Encontro de Escritores”, promove a literatura na baixada santista através de feiras e oficinas literárias.

Instagram: @mayaramibeani
Autora no trema.com.br e no medium.com

Olga Carrasco Chaves
Ilustração e Fotos

Estudante, nadadora, capoeirista e ilustradora. Amante da arte.