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O Brasil oficial, aquele que é veiculado na mídia, nos filmes e nas telenovelas, está muito distante da realidade das ditas “minorias”. Aqueles que fogem dos estereótipos da classe média, branca e heteronormativa, precisam trilhar seu caminho em uma selva hostil. Encontram-se à margem da sociedade, são os marginais.
Nesta edição, trataremos dos marginais, não no sentido pejorativo da criminalidade, mas buscando elucidar algumas tribos que são legítimas no seu modo de ser e estar no mundo. Muitos baseiam sua existência na contestação de regras pré-estabelecidas, como os pichadores, que deixam sua marca nos muros das cidades, outros desafiam o sistema com músicas de protesto, e há aqueles que apenas existem, sem escolha, como os sem-teto. Esperamos criar um olhar mais empático sobre os marginais. Afinal de contas, as pessoas não cabem em caixas. Boa leitura!


Resenha do livro: De onde eles vêm? Por Daiane Carrasco
A escrita de Jeferson Tenório tem como característica uma abordagem literária crítica, principalmente em temas transversais ao racismo, como em “O avesso da pele”. O autor repete a fórmula bem-sucedida que lhe rendeu o Jabuti de 2021.
“De onde eles vêm?” conta a história de Joaquim, um jovem negro da periferia de Porto Alegre, na verdade morador de Alvorada, que passa para o curso de Letras nas cotas raciais. O protagonista é o retrato da juventude preta no Brasil: oriundo de uma família pobre, com pai ausente, criado por uma mãe solo. Enfrenta diversos desafios. Mora com a avó, de 89 anos, que apresenta demência, e com uma tia também idosa, que faz faxinas para sobreviver. Além dos perrengues financeiros, Joaquim precisa se desdobrar para conciliar os estudos com os cuidados com a avó.
Tenório desnuda o mito de que o cotista é alguém que ganhou a vaga de bandeja. Muito pelo contrário: as cotas raciais são uma política importantíssima do ponto de vista da reparação histórica pós-abolição, porém, é como o primeiro passo da escalada do Everest.
Joaquim tem anseios como qualquer jovem. Sonha em ser escritor, apaixona-se por uma colega da faculdade. Mas a realidade se impõe, dura. O contexto social do protagonista faz com que o leitor perceba que a ascensão por meio da educação é muito mais complexa do que supõe uma visão simplista de “colocar os pretos para estudar”. Situações corriqueiras, como ter que sair cedo de uma festa para não perder o ônibus, ou a exigência implícita de demonstrar um bom nível de aprendizado e rendimento acadêmico, demonstram o abismo entre ele, cotista, e seus colegas da ampla concorrência. Examinemos as desventuras em série de Joaquim. Ele precisa cuidar da avó, o que limita a sua liberdade de ir e vir, dadas as suas obrigações para com ela. No entanto, é a aposentadoria dela que o sustenta. É um efeito cascata: não há apoio suficiente do Estado para que ambos tenham uma vida satisfatoriamente digna. Joaquim não consegue estudar. A avó, apelidada de “Vó Fininha”, pela sua fragilidade e magreza, também não tem suas necessidades devidamente supridas. A namorada, Elisa, dá aulas em um cursinho de Inglês. O círculo de amizades de Elisa é diametralmente oposto do de Joaquim. A afeição não é suficiente para mantê-los juntos.
Assim, o espírito de Joaquim vai ficando abatido. Sem dinheiro e sem perspectiva, acaba desmotivado. “Lembro de ter entrado no curso com tanta vontade. Como se fosse minha única chance na vida. Mas os problemas externos me tomaram de uma tal maneira que a universidade se tornou grande demais para mim. Na verdade, eu comecei a desenvolver raiva e ao mesmo tempo inveja dos meus colegas que podiam ter crises existenciais, que podiam trancar o curso, ou queriam desistir dele. Eu achava aquilo tudo muito injusto.”
“De onde eles vêm?” é urgente e necessário ao tratar dos “Joaquins” que estão espalhados pelas universidades do país. A nós cabe perguntar: “De fato, de onde eles vêm?” Somente com ações inclusivas que visem a permanência desses jovens no ensino superior poderemos avançar para a próxima pergunta: “E agora, para onde eles vão?”


De onde eles vêm?
Autor: Jeferson Tenório
Após episódios de censura e duzentas mil cópias vendidas de O avesso da pele, o novo romance do autor vencedor do prêmio Jabuti. Com a lei de cotas raciais como tema, uma história sobre preconceito e luta, exclusão e sonho.
De onde eles vêm tem como pano de fundo o ingresso dos primeiros cotistas na universidade brasileira. Na história, que se passa em Porto Alegre, por volta dos anos 2000, acompanhamos o despertar racial do narrador, Joaquim, em meio a um ambiente hostil. Órfão, tendo que cuidar da avó doente, desempregado e sem dinheiro, Joaquim busca a todo custo manter seu amor pelos livros e pela literatura. Romance de formação de um leitor, este é o retrato de uma jornada feita de obstáculos num momento em que políticas para amenizar desigualdades eram vistas como problema, não como possibilidade de solução. Saiba mais…



Filme: 8 mile – Rua das Ilusões (2002) por Sérgio Fernandes
Eninem interpreta Bunny Rabbit, um rapper branco que vive no submundo de Detroit. O filme tem um cunho autobiográfico do próprio Eninem, cujo nome real é Marshall Bruce Mathers III, M and M, sacaram?
Em uma das primeiras cenas, ele participa de um batalha de rap, mas quando sobe ao palco é hostilizado, pois os rappers são tradicionalmente negros. Ele paralisa e sai vaiado. Depois envolve-se em uma briga com a mãe e o namorado dela. No calor da discussão, sua irmã mais nova, Lily, por quem nutre um amor paternal, acorda e aparece na porta da casa mega humilde, na verdade, um trailer decadente. Super dramalhão, né?
Uma das questões controversas do filme é o chamado “racismo reverso”, porque defende o ponto de vista de que Bunny Rabbit é discriminado no mundo do rap por ser branco. Ora, ora… Será? O fato é que talvez a apropriação cultural do rap incomodasse os negros, mas por mais que não seja a intenção do diretor levantar essa lebre, racismo reverso é sempre gol contra. De qualquer forma, vale a reflexão do quanto a vida na sociedade que cultua o deus consumo é difícil quando não se tem dinheiro.
Durante as quase duas horas de duração, o diretor optou por retratar o lado feio dos Estados Unidos, bem diferente do “American Dream”. Bairros pobres, cheios de lixo, com construções precárias. Os amigos de Rabbit e ele próprio divertem-se com prazeres simples, como andar de carro pelas ruas de Detroit ou atirar em alvos com armas de paintball. Também praticam atos de vandalismo, como atear fogo em uma casa abandonada – rebeldia contra a propriedade privada que eles dificilmente conquistarão.
Há estereótipos entre os negros: o boa pinta conquistador, o gordo, o nerd e o gangster – aí está a maior casca de banana por onde o espectador escorrega. Se o filme optou por mergulhar na vibe periferia, por que insistir na ideia equivocada de mais uma vez não autenticar a identidade dos personagens, repetindo preconceitos rasos?
Rabbit abandona a namorada, grávida, e se apaixona por uma jovem branca e problemática, Ali, que, claro, o esnoba e fica com seus amigos e conhecidos. Ele se envolve em confusões e brigas por conta da “mocinha”, interpretada pela precocemente falecida Brittany Murphy. Aqui temos outro nó no enredo: não seria melhor incentivar os homens a serem pais melhores em vez de normalizar o abandono? Vejam: temos que assistir a obras que nos tirem da zona de conforto e, justamente por isso, temos que ser críticos em relação a elas. Sigamos o baile…
O enredo segue nessa toada: pobreza, brigas, rap. Até que numa batalha épica de 11 minutos, Rabbit leva a melhor. Recebe a proposta de ser apadrinhado por um amigo seu, rapper negro, “Future”, mas recusa. Prefere fazer as coisas do seu jeito.
Apesar dos pesares, é uma obra interessante, mostra a violência e as péssimas condições de vida dos marginalizados estadunidenses. A música é uma válvula de escape. Assim como meninos pobres no Brasil sonham em ser jogadores de futebol, lá os garotos almejam fazer sucesso com suas rimas. Como diz o hino de 8 mile: “Lose yourself” – perca-se. O resgate na Rua das Ilusões foi o rap.

8 mile – Rua das Ilusões (2002)
Direção: Curtis Hanson | Roteiro: Scott Silver, Jesse Wigutow
Elenco: Eminem, Kim Basinger, Mekhi Phifer
Título original: 8 Mile
Em 8 Mile – Rua das Ilusões, Jimmy (Emimem), um jovem rapper em plena crise de identidade, procura um sentido para sua vida. Ele abandona a namorada grávida, briga com a mãe alcoólatra e é perseguido pelos inimigos. Tudo vai mal, mas ele deposita suas esperanças em um concurso de rima. É lá que ele extravasa sua raiva e angústia. Saiba mais… (Adoro Cinema).


Vendedores ambulantes e camelôs por Igor Pires Leon
Acordou um pouco antes do celular despertar, isso perto das quatro horas da manhã. Espreguiçou-se ruidosamente à beira da cama. Passou uma água no rosto, vestiu-se, colocou a chaleira com água para preparar o café. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos; sentia-se sonolento, fora dormir tarde da noite por comemorar o aniversário da filha mais velha. A chaleira apitou, o café foi coado, escorrendo lentamente pelo velho coador de pano; um café ralo, quase chá.
Deixou o barraco numa comunidade da zona leste de São Paulo para apanhar a condução. O ônibus chegou lotado ao ponto. Quase não conseguiu entrar, tendo que usar de força para abrir um espaço entre os demais passageiros. Seria uma viagem longa e tortuosa, como sempre era.
Finalmente o ônibus chegou ao ponto final na estação de metrô do Brás. Ariovaldo sentia-se cansado, ainda teria de andar um bom pedaço até chegar ao galpão em que deixara seu carrinho com as mercadorias − roupas de grife, tênis de marca, tudo falsificado − que venderia na rua Maria Marcolina, lugar em que trabalhava há mais de dez anos. Começou vendendo bijuterias, depois capas para celular e outros acessórios, para finalmente as ditas roupas e tênis de marca. Não esperava ter de pagar por uma taxa extra ao proprietário do galpão, tentou regatear, mas o homem estava irredutível: ou pagava ou sairia de lá sem a mercadoria. Pagou. Era isso ou ficar sem nada.
Puxou o carrinho até a rua Maria Marcolina. Ajeitou as mercadorias, ligou o velho aparelho de som para ouvir um sertanejo. Outros camelôs foram chegando: Ditinha, com suas bijuterias; Demétrio, o angolano, que vendia camisetas e moletons, tudo de “marca”. Trocaram ideias, falaram do clima frio pela manhã, da vontade de não levantar da cama. Riam enquanto esperavam os primeiros compradores.
Ariovaldo vendeu sua primeira peça de roupa para um rapaz, que gostou e levou outra. Era por volta de dez horas da manhã. Ditinha e Agnaldo não tinham vendido nada até então. “Tem muita gente na rua, mas pouco comprador”, reclamou o angolano. Ariovaldo concordou.
Comprou uma marmita com arroz, feijão, um frango ensopado, uma salada, devorando-a em pé, ao lado do carrinho. Conseguiu vender mais algumas mercadorias, o suficiente para cobrir o gasto que tivera com a taxa extra do galpão. Tudo parecia tranquilo até que um grupo conhecido de fiscais dobrou a esquina. Estavam passando para cobrar a féria da semana. Ariovaldo estava disposto a não dar dinheiro para aqueles homens, não desta vez. Conversaria com eles, explicaria o ocorrido, que já havia gasto o dinheiro. Não teve conversa, Dominguinhos, o mais truculento dos fiscais, não quis ouvir, queria o dinheiro da féria. Ditinha e Demétrio pagaram, mas Ariovaldo argumentou novamente que não tinha como pagar. Dominguinhos encarou a Ariovaldo. Não disse nada, mas apenas pelo olhar percebia-se que coisa boa não viria… Aparentemente desistiu da cobrança, seguiu em frente com seus cúmplices de ladroagem. Ditinha disse ao rapaz para pagar, que se precisasse de dinheiro, ela ajudaria, mas Ariovaldo estava decidido, não pagaria um centavo, pois aqueles fiscais eram extorsores. Por dentro, o rapaz estava fulo, sentindo uma enorme vontade de explodir, de lutar contra aqueles caras que só sabiam extorqui-los. Fechou os olhos, respirou fundo, recordou-se de sua esposa, de seus filhos, buscando forças para seguir naquela lida.
Um grupo de policiais militares dobrou a esquina, ordenando que todos ali recolhessem suas bancas, deixassem o lugar livre, caso contrário, teriam as mercadorias apreendidas. Ariovaldo não arredaria pé, não estava fazendo nada de errado, era trabalhador; não mexeu uma palha. O policial, encolerizado, ordenou a Ariovaldo que desse o fora dali. Estava decidido a não sair, não estava causando desordem alguma.
O policial desceu o cassetete em Ariovaldo que caiu e levantou-se, com o sangue escorrendo do alto de sua cabeça. Os demais camelôs tomaram as dores de Ariovaldo. A turma do Dominguinhos chegou para levar as muambas para um depósito da prefeitura. Ariovaldo interpôs-se entre os fiscais e o seu carrinho numa luta renhida. Defendeu avidamente o seu ganha pão.
Foi arrastando seu carrinho pela rua, quando ouviu-se um disparo. Gritos, uma correria pela rua Maria Marcolina. Os lojistas fecharam as portas. Ariovaldo virou-se assustado, o suor escorria da sua face. Seus olhos desfaleciam. Lentamente foi dobrando os joelhos, para finalmente emborcar de vez, com um balaço no meio das costas. Arrastaram o corpo dele para a calçada, como se fosse um saco de ossos, deixando-o ali, agonizante, suplicando por um restinho de vida.

Pichadores e grafiteiros por Karine Souza e Pousas
Os grafites e as pichações como conhecemos nos centros urbanos têm sua origem entre as décadas de 1960 e 1970. Eles aparecem em locais diversos, porém, em um cenário similar: a periferia.
Uma curiosidade é que apesar de ambos terem surgido a partir de movimentos contraculturais, com o passar do tempo, o grafite passa a ser reconhecido como arte. É um estilo que remonta os registros do homem nas paredes, desde as pinturas rupestres, passando por Roma e Grécia antiga, Idade Média e até mesmo os murais de artistas do século XX.
Já a pichação faz um caminho diferente, ela aposta no poder da palavra. Uma palavra que não pede licença, invade. Com o passar do tempo, parte dessa palavra perde sentido e ganha poder: o uso da pichação por gangues urbanas se transforma em um mecanismo de territorialidade e para demonstrar força e influência.
O grafite e a pichação surgem a partir da falta de planejamento urbano, da negligência com a população periférica e também do aumento da criminalidade. O grafite aposta em formas e cores, exportando artistas para o mundo, como Eduardo Kobra, Os Gêmeos, Minhau, Nina Pantolfo, entre outros. Já o pixo se encarrega de destacar críticas e protestos de cunho político, social e ambiental, mantendo-se marginalizado, sendo contravenção no Brasil, considerado um ato de vandalismo e sem valor artístico.
De quem é o muro? Não existe caminho fácil quando o assunto é o julgamento da expressão alheia. É fato que as mensagens agressivas do pixo, muitas vezes expressas em rabiscos, tendem a incomodar muito mais do que um desenho ou letras estilizadas do grafite. Ainda assim, nem sempre o grafite é feito mediante a autorização dos donos da parede.
Coabitamos a mesma selva de pedra e estes artistas precisam de espaço para se expressar. Não é por isso que muros, fachadas e equipamentos públicos devem estar à disposição da vontade alheia. É preciso encontrar um diálogo entre artistas e responsáveis pelos espaços.
Em tempos de censura literária no nosso país por motivos travestidos de uma pretensa preocupação moral, não é de se admirar que mensagens mais cruas e diretas incomodem tanto. A verdade é que o verbo ainda precisa lutar para ganhar espaço e ser reconhecido como expressão de arte. Talvez seja a hora de vermos o muro não como meu, nem como seu, mas como a terceira margem, onde há espaço para mentes rebeldes em harmonia com o mundo que nos cerca.




A tribo do skate por Daiane Carrasco
A primeira vez que eu assisti ao videoclipe de “Dark necessities”, da banda californiana Red Hot Chili Peppers, dirigido pela atriz e cineasta Olivia Wilde, eu fiquei “Uau!”. Mas por que essa epifania pessoal pelo audiovisual de uma música gringa? Explico.
A banda faz sua performance característica, com suas excentricidades e trejeitos, em uma casa escura, com papel de parede com estampa verde. A câmera mostra um corpo feminino machucado, enquanto muda o foco para os músicos deitados em um sofá. À primeira vista, parece que se trata de um abuso, de violência contra a mulher, mas não: as escoriações são causadas pelo empoderamento de fazer uso do próprio corpo para a prática de um esporte – o skate.

Pode parecer algo simples, banal, mas não é: estamos tão habituados a ver mulheres apanhar que não passa pela nossa cabeça que a causa de um corpo feminino ferido possa ser outra, muito menos uma escolha por algo mais radical, que traga riscos.
Imersos no estilo californiano de vida, com vários videoclipes enfocando o universo do surf, seria esperado que o Red Hot trouxesse o skate com uma abordagem tradicional, ao estilo do filme “Os reis de Dogtown” (Lords of Dogtown, 2005), que trata da insólita história de surfistas que invadem mansões abandonadas e fazem das piscinas vazias pistas de skate. É um esporte convencionalmente masculino, de jovens descolados. Porém, a sacada foi genial: mulheres deslizam sobre rodas. E fazem isso lindamente. As protagonistas são as atletas Carmen Shafer, Amanda Caloia, Amanda Powell e Noele Mulligan.

É absolutamente transgressor: elas caem, se ralam, bebem cerveja e a usam para limpar as feridas. Cabelos soltos, meias de nylon furadas, torsos com pouca roupa. Livres, sem amarras sociais. Não há plateia masculina. Tampouco um homem esperando por cada uma delas em casa. Nem aprovação paterna. Causa estranhamento porque não pediram as bênçãos do patriarcado. Trata-se de identidade e coragem. Ponto pra elas, inspiração pra nós. Viva a nossa “Fadinha” Rayssa Leal.

Os sem teto e os moradores de rua por Cláudia Borges
Era um dia de sol, tudo passava: o vento, as pessoas, os veículos. Só não passava a fome. Às vezes consigo enganá-la, pensar em outras coisas. Imagino estar num lugar de natureza linda, livre, sem tantas artificialidades, mas a fome sempre volta a nos assolar. A fome é tanta que a comida termina antes de a vontade de comer.
Semana passada alguém nos deu leite e bolachas. Ontem, comemos recheadas. Acabou tão rápido. Eram duas. Uma para mim. Outra para o meu filho. A fome castigou-nos o dia todo. À noite, fomos ao albergue e teve sopa. Viemos parar aqui depois de o pai dele sumir, ou nós sumimos. Viemos do norte do estado. Ele nos abandonou, e eu não tinha como nos manter, acabamos aqui, vendendo artesanato ou pedindo esmola.
Eu podia escolher a prostituição, mas não conseguiria viver assim. Prefiro pedir, sei que corremos muitos riscos. Desejo uma vida melhor, mas hoje só queria que meu filho tivesse um sono bom. Estava frio e meu pequeno com pneumonia. Foi medicado e liberado, me deram uma receita, mas não consegui o suficiente para comprar os remédios. Ele treme, o suor escorre. Eu o tenho em meus braços… A fome, a doença e o abandono estão conosco. Senti seu suspiro. Agora, não o tenho mais…



Rap e hip hop por Rita Perez Germano
“Tamo tipo pas-sa-ri-nhos”
Foi durante a pandemia de 2020, em meio a uma formação pedagógica mediada por telas, naqueles dias de ruas desertas e portas trancadas, que passei a compreender com mais emoção a poesia resistente de Emicida. A proposta era simples: escolher um objeto que estivesse em nosso alcance e relacioná-lo ao momento em que vivíamos e a uma música capaz de tecer sentidos. Levei, ou melhor, mostrei dois passarinhos de gesso, pintados de um rosa meio bronze – ou um bronze meio rosa – e a música Passarinhos, de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. (YouTube)
E no meio disso tudo, como cantou o rapper, havia um coro insistente vindo de fora: os passarinhos pousados nos cabos de energia elétrica da rua lembravam que era preciso, apesar da fragilidade do momento, esperançar. Pousar. Fazer ninho – nem que fosse no peito um do outro. E achei linda a tessitura suave que se bordava com telas, microfones, conexões, gentes, cantos, ninhos e esperanças.
Foi então que percebi o contraste. Nós, humanos, cheios de tecnologia, conexões virtuais, notícias a cada segundo, estávamos paralisados, sem saber onde pousar – os peitos uns dos outros estavam distantes. Eles, tão frágeis em aparência, seguiam confiantes, fazendo ninhos até em cantos improváveis. Era como se carregassem no peito uma sabedoria que nós desaprendemos no caminho, ou quem sabe, nunca aprendemos: a de confiar no amanhã, mesmo que o hoje pareça cansativo, machucado, acuado, acanhado –embebido em antidepressivos.
Ficamos presos em gaiolas invisíveis de medo, de disputas, de ódio, de desconfiança, perdemos a leveza de voar juntos. E, no entanto, é no “peito um do outro” que o ninho se constrói, ou deveria se construir. Talvez Emicida tenha nos ensinado, com os seus passarinhos, que é urgente (re)descobrir o valor do outro: o canto que insiste, o vento que passa, o abraço que é colo. Porque se os pássaros não cessaram seu canto, por que nós deveríamos desistir do nosso?
Hoje, quando ouço Passarinhos, penso que não é só uma canção. É um lembrete de uma esperança teimosa. Um chamado a imaginar outro futuro, em que nossas crianças não precisem crescer sob grades, e nós possamos, enfim, aprender com os nossos professores do voo: os que cantam apesar do caos, os que acreditam na primavera mesmo quando tudo ao redor ainda está em um rigoroso inverno.
A pandemia passou. Deixou marcas, mas passou. E essa música do Emicida me atravessou. Me afetou naquele momento, como ainda me afeta diariamente. Rememorar aqueles dias, enquanto escrevo essa pequena prosa – que até insiste em ser verso – me traz infinitas memórias e histórias. E um passarinho me contou que somos feitos de histórias. Ouso dizer ao passarinho que somos feitos de histórias e de ninhos; e, talvez, a vida seja esse eterno ensaio de aprender a voar e pousar no peito um do outro.



Carolina em quadrinhos por Natania A S Nogueira
PINHEIRO, João, Barbosa, SIRLENE. Carolina. 3ª ed. – Veneta: São Paulo, 2018.

A poetisa, cantora, compositora e escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) ficou famosa por seu primeiro livro “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960. A Poetisa da favela, como muitos a conhecem. Uma mulher que criou sozinha os filhos e viveu em condições sub-humanas. Ela conheceu de perto a fome, sofreu com o racismo e o sexismo. Mulher, favelada e preta, Carolina não teve acesso a uma educação básica, tendo frequentado a escola brevemente e, por vezes, em desespero, ponderou se valia a pena continuar vivendo.
Carolina foi autodidata. Praticou a leitura e a escrita com livros que achava no lixo. Foi na escrita de si, realizada em cadernos, que ela encontrou o seu lugar. Relatando o seu dia a dia de mãe solteira na favela do Canindé, em São Paulo, Carolina saiu da invisibilidade e mostrou ao Brasil e ao mundo que a vida nas cidades grandes era muito diferente daquilo que se via em jornais e revistas. Sua obra viajou o mundo, tendo sido aclamada na França.
Durante um tempo esquecida, Carolina teve sua obra redescoberta pelos leitores do século XXI. Em 2017, ela se tornou personagem de uma História em Quadrinhos (HQ), roteirizada por João Pinheiro e desenhada por Sirlene Barbosa. A HQ “Carolina”, publicada pela editora Veneta, traz a biografia e parte da obra dela, até porque uma não pode ser dissociada da outra. Sua vida na favela teria continuado anônima se não fosse a descoberta de seus escritos pelo jornalista Audálio Dantas.
Carolina foi uma mulher do povo que lutou para sobreviver, alcançou a fama e retornou à pobreza. Sua história é comum a muitas Carolinas que vivem nas favelas brasileiras, mães solteiras, analfabetas ou semianalfabetas, vítimas de preconceitos diversos e de violências, mas que, mesmo assim, insistem em viver, em lutar. Esta HQ traz a representação de uma mulher que poderia ser como tantas outras, mas que rompeu com estigmas sociais e se apropriou de algo que é muito caro para as elites: conhecimento.
A história em quadrinhos “Carolina”, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro, recebeu o Prêmio Especial do Festival de Quadrinhos de Angoulême, um dos mais importantes do mundo, na França. Ela também foi indicada ao Jabuti e ao Troféu HQ Mix, importantes prêmios brasileiros no gênero.
Obras de Carolina Maria de Jesus:
- Quarto de Despejo (1960);
- Pedaços da fome (1963);
- Diário de Bitita (1982).

Livros Indicados
Que tal um livro escrito por um escritor marginal? Se liga nessas dicas e tenha uma ótima leitura!


Elefantes no céu de Piedade
Autor: Fernando Molica
A década é a de 70, o Brasil ainda se acostuma à ideia da nova capital, e os militares mantêm o país sob tacão autoritário. No bairro de Piedade, no Rio, numa casa próxima à avenida Suburbana, uma família de classe média recebe um primo para um pretenso tratamento de saúde — ao mesmo tempo em que outro parente se vê envolvido num pouco esclarecido assalto a banco. Aí está o mote para este Elefantes no céu de Piedade, novo livro de Fernando Molica, que com técnica maiúscula consegue aliar andamento de suspense a revelações às vezes doloridas. Valendo-se de um narrador em primeira pessoa e que tem a um só tempo o olhar espantado e inocente da infância, Molica faz uma reconstrução de época preciosa, com direito a um divertido acervo de canções, de utensílios e principalmente de carros, material que faz contraponto ao angustiante, e muito surpreendente, andamento dos fatos. Saiba mais…

Eu receberia as piores notícias dos
seus lindos lábios
Autor: Marçal Aquino
No momento em que começa a narrar os fatos de que eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, o fotógrafo Cauby está convalescendo de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo – mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico. A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história de Chang, fotógrafo morto num escândalo de pedofilia; o mistério de Viktor Laurence, jornalista local que prepara uma vingança silenciosa; a vida de Ernani, que tirou Lavínia das ruas e das drogas no passado. Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos. “Nunca acreditei no diabo”, diz ele. “Apenas em pessoas seduzidas pelo mal.” Saiba mais…



Esquema
Autor: Jessé Andarilho
Desde criança, Daniel sempre buscou um jeitinho de se dar bem. Tentava levar vantagem em tudo o que fazia, desde entrar de penetra numa festa a arrumar fichas de graça no fliperama. Enquanto se virava para manter as notas e a frequência na escola, fazia o que podia para arranjar dinheiro: entregou quentinha, serviu salgadinho em festa infantil, trabalhou numa banca de jornal e foi garçom numa casa de shows. Em todos esses lugares aprendeu a aplicar golpes, mas também sofreu alguns. Seu pai, que ganhou a vida vendendo passarinhos ilegalmente, era o primeiro a criticar sempre que o filho levava uma volta.
De esquema em esquema, o jovem começa a trabalhar como motorista de Kombi no subúrbio carioca, onde aprende os macetes do ofício com um cobrador experiente conhecido como Deputado. Até que o acaso o torna famoso: alvo de uma pegadinha de um canal de notícias, Daniel aparece na TV como exemplo do brasileiro honesto. A partir daí, sua vida se transforma, e entre lutas pelos direitos dos motoristas e disputas políticas na cidade ele logo é alçado a figura de proa no combate às injustiças do país. Esquema é uma brilhante comédia de erros. Inesperada e emocionante, se debruça sobre a história de quem precisa lutar constantemente para sobreviver — e ainda dá um jeito de conseguir um por fora. Saiba mais…





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Corpo Editorial

Editora
Daiane Carrasco
Oceanóloga. Escritora.
Instagram: @daiane_carrasco
Autora do Livro Ozzy & Johnny.

Designer e Criação
Sérgio Fernandes
Consultor de T.I. & Terapeuta Corporal.
Instagram: @sehfernandes
Site: sehfernades.com.br
Autor do Livro Zé das Campas.




Escritores da Edição nº 24 de 2025 – Os marginais
Igor Pires Leon
Escritor
Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.
editoranauta.com.br
clubedeautores.com.br
Instagram: @igorpiresleonescritor



Cláudia Borges
Técnica Administrativa na FURG
Instagram: @claudia.borges.cacau
Além do Mulherio das Letras, participa do coletivo Escritores de Quinta e Poetas Papareia e dos grupos de pesquisa Poéticas Orais e Pensamento Decolonial e Literatura e Identidade na América Latina
Coautora do Livro Delírios de Quinta



Rita Perez Germano
Professora, Educadora e Escritora
Instagram: @ritapgermano

Natania A S Nogueira
Professora, Historiadora e pesquisadora de HQs
Instagram: @nogueiranataniaas
Site: natanianogueira.academia.edu
historiadoensino.blogspot.com
Ebook para baixar: 2024 HQs Interdisciplinaridade Desafios Metodológicos


