Edição 29 – A arte rupestre – O espírito humano – Fevereiro 2026

Edição 29 – A arte rupestre – O espírito humano – Fevereiro 2026

Introdução | Júlio Lacerda | Al-sahrã | O beijo | As primeiras “selfies” | Os dançarinos | Os esquiadores | Os primeiros desenhos animados | Livros Indicados | Corpo Editorial | Escritores da Edição

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“De onde viemos?” Essa é a pergunta que passamos a fazer desde que despertamos a nossa consciência coletiva. A primeira edição de 2026, a do mês de fevereiro, traz um tema pouco debatido, ignorado e até desconhecido da maioria dos brasileiros: a pré-história.

Por que é importante enfocar este tema? Porque envolve a ancestralidade, a origem do homem. A negação da ciência nunca é casual ou inofensiva. Impor uma versão religiosa como verdade é um projeto de alienação e de dominação pela culpa e pelo medo. O pensamento crítico passa pelo questionamento de dogmas. A ciência é libertadora, entende os processos evolutivos como parte de um passado casual e biológico, e não como castigo ou vontade divinos. A formação cidadã de qualquer indivíduo exige o distanciamento de posturas supersticiosas e fundamentalistas. O método científico e a racionalidade impulsionam as sociedades ao progresso.

Nessa linha de raciocínio, trouxemos textos formulados a partir de pinturas rupestres e de um petroglifo (os esquiadores). É uma contribuição ínfima para refletir sobre um passado distante da humanidade, mas já é um começo…

Boa leitura!

Júlio Lacerda

Agradecemos imensamente ao paleoartista Júlio Lacerda que gentilmente permitiu o uso das suas ilustrações nesta edição.

Júlio Lacerda, paleoartista recifense. Transformou a paixão por animais pré-históricos em profissão, com mais de 10 anos de experiência na criação de ilustrações para livros, artigos e exposições.

Redes Sociais de Júlio Lacerda:

instagram.com/lacerda.julio | tumblr.com/paleoart | linktr.ee/julio.lacerda

Aprecie o trabalho dele.

Al-sahrã por Igor Pires Leon

Por favor, não me chamem de “Deserto do Saara”. É o mesmo que dizer “o deserto do deserto”. Al-sahrã vem do árabe. Significa “o deserto”. Saara basta, entenderam? Sou tratado como um terrível monstro pelos humanos. A amplitude térmica é extrema entre o dia e a noite. A imensidão arenosa pode ser fatal para os incautos. Mas são as minhas areias, impulsionadas pelos ventos alísios de nordeste, que fertilizam com óxido de ferro o Oceano Atlântico, garantindo a vida marinha em regiões azuis muito pobres em nutrientes. As mesmas tempestades de areia que podem matar, abrasando a pele de tudo o que se move sobre a superfície, semeiam a vida a quilômetros de distância. Permaneço vivo, implacável e generoso. Contraditório e poético, não é mesmo?

Já fui mais dócil, uma terra linda úmida, um paraíso verde, com florestas densas, com rios e lagos permanentes. Os animais matavam a sede nos rios piscosos. Os homens nadavam nas águas cristalinas e tiravam o sustento. Alguns caçavam, outros colhiam frutos e domesticavam plantas, depois pastoreavam pequenos rebanhos.

Ora, se duvidam da minha palavra é só ver as artes rupestres nas cavernas no platô de Gilf Kebir (Caverna dos Nadadores) no Egito – homens nadando, animais pastando testemunham que um dia eu fui sublime. Adorava a sensatez dos elefantes e as girafas com seus pescoços enormes. Divertia-me com o mau humor dos hipopótamos. Sentia a chuva caindo sobre mim, me encharcando, me alimentando. Eu explodia em verde e vida. Bons tempos aqueles.

Até que começou a chover cada vez menos. Desesperei-me. Os rios e os lagos foram secando. Os homens e os animais partiram para a planície do Nilo. Infelizes, ingratos! Não havia nada que eu pudesse fazer. Tudo o que era verdejante foi morrendo lentamente. Fui me degradando, perdendo a vegetação, até sobrar apenas areia. Tive que me acostumar às mudanças climáticas, aceitar o que me tornei – um deserto que cobre todo o norte da África.

Parem de tacar combustível fóssil na atmosfera, companheiros! Aprendam comigo. Áreas vicejantes podem desertificar. Hoje os meus nadadores parecem anedota. Mas por que eu ia mentir? Nadem, vivam e lembrem-se de mim. Saara é o meu nome.

Os nadadores, Caverna dos Nadadores, Wadi Sura, Egito. Datação aproximada, 8000 a.P.* Uma cena comovente de pessoas nadando onde hoje é o Saara! Um dia, o deserto foi um oásis verde e cheio de diversão.

Fonte: Bradshaw Foundation, Cave of Swimmers
Fonte: Bradshaw Foundation, Cave of Swimmers

* a.P. = antes do presente

O beijo por Daiane Carrasco

Anahí e Rudá viviam em um assentamento com suas famílias, onde hoje é o Piauí, há milhares de anos. Cultuavam o sol, a lua e as estrelas. Aprenderam a ouvir os pássaros antes das pessoas. Carregavam sementes nos bolsos e as dispersavam. Andavam descalços e subiam nas árvores. Caçavam com os mais velhos e banhavam-se no rio. Passavam-se os dias, apenas versavam sobre o sobreviver e o existir. A vida era frágil. Podia-se morrer em uma queda, por uma picada de cobra, pela ingestão de frutos venenosos, pelo ataque de animais selvagens.  Quando a noite chegava, reuniam-se ao redor das fogueiras. Dormir era perigoso. Ficavam vulneráveis a bandos rivais que disputavam os melhores territórios de caça e que costumavam pilhar durante a noite. Acordar na manhã seguinte era um pequeno milagre.

Anahí percebeu que as estações mudaram o seu corpo. Seus seios despontavam tímidos. Vez por outra, um rastro de sangue escorria pelas suas pernas. Ela observava as mulheres com ventres aumentados, e parindo depois de algumas luas. Concluiu que em breve também evoluiria ao status de mãe. Comparava-se com as demais meninas da tribo. Algumas já despertavam o interesse dos jovens rapazes. Outras tinham um destino mais traiçoeiro: fugiam do alcance dos homens mais velhos, que corriam atrás delas sem pudores, com os membros túrgidos. Eram tomadas à força ou se conformavam com a invasão. Anahí não havia amadurecido o suficiente para atrair a atenção dos machos, o que lhe dava certo alívio, mesmo que soubesse que são os homens que plantam a vida. Se quisesse frutificar, deveria aceitar a entrega, numa rendição voluntária.

Rudá havia chegado ao mundo doze luas cheias antes de Anahí. A natureza o chamava. Pensava nas mulheres. Tinha suores noturnos. Canalizava suas energias em longas caminhadas e incursões às matas. Recusava-se a ceder aos instintos e a repetir o comportamento dos seus. Queria acoitar-se com alguém por vontade e consentimento.

Uma tarde, Rudá e Anahí saíram para pescar. Ambos andavam mudos. Um certo desconforto os rondava. Não era do mesmo jeito de quando eram crianças. Sentiam-se observados, julgados. Há sempre um deus entre as árvores. O verde é sagrado. Respeitavam a água fresca e os animais que ali viviam. Cada um sabia o que ia no coração do outro, mas não intentavam dizer nada. A hesitação do falar e os olhares desviados gritavam pela floresta e até o vento soprava tais segredos. Chegando ao riacho, prenderam os covos de palha entre as rochas, contra a correnteza. Aguardavam na margem, ansiosos pela captura. 

Deitaram-se na relva lado a lado. Anahí pôs os olhos no companheiro de aventuras. Viu um moço forte e honrado. Rudá há tempos notara que Anahí despontava como flor a desabrochar. Descobriam-se silentes e contemplativos. Conferiram os covos no qual os peixes se debatiam sem escapar. Perceberam que era hora de voltar.

Antes de adentrarem o assentamento, pararam por um instante. A intimidade de uma vida compartilhada parecia-lhes convidativa a um querer ousado. Não tiveram medo ou culpa, pois era bom. Um calor, um palpitar do peito, cerceava o lado racional, fazendo as emoções transbordarem.

Anahí levou os dedos até os seus lábios, umedeceu-os com a saliva e depositou-os úmidos nos lábios de Rudá, que repetiu o mesmo gesto. Prosseguiram o percurso por mais alguns passos. Entreolharam-se. Rudá colocou as mãos para trás. Inclinou-se. Anahí imitou-o. Sem intermediários, os lábios se tocaram.

Algo mudou. Passaram a expressar desejo e afeto. E o resto é história.

“O beijo”, Parque Nacional da Serra da Capivara, PI, Brasil. Datação aproximada, 12000 a.P. O artista retratou um casal de postura inclinada, com as faces tangidas, até os lábios se tocarem. Aparentemente, ambos estão com as mãos para trás, conferindo ternura ao gesto. O beijinho mais antigo do mundo é brasileiro! Só podia ser!

Fonte: ICMBio, Parque Nacional da Serra da Capivara

As primeiras “selfies” por Mara Bainy [by Me]

Impressões

A Caverna das Mãos é um sítio arqueológico localizado no desfiladeiro do Rio Pinturas, na Patagônia Argentina. Consiste em uma caverna na base de um paredão rochoso, onde encontram-se mais de vinte mil mãos impressas em negativo. Essa caverna é um exemplo vivo da comunicação ancestral, aquela realizada pelos humanos que estavam migrando das cavernas para as tribos, haja vista que, segundo a UNESCO, essa arte rupestre data entre 13.000 e 9.000 a.C.

Estar neste local vai muito além da ciência. A arqueologia nos dá as respostas técnicas, como, por exemplo, que os seres humanos “decoraram” a rocha usando óxido de ferro como pigmento vermelho, óxido de manganês como pigmento preto, argila branca e natro-jarosita para os pigmentos alaranjados. A ciência também nos diz que as cenas de caça (outro tipo de cena pintada na caverna) relatam como era a vida desses ancestrais caçadores-coletores. Mas ela não responde o porquê.

Por que esses ancestrais deixariam suas marcas nas rochas? Eis a lacuna entre a ciência e a verdade desses ancestrais!

Na História, os humanos sempre deterão os louros perante suas conquistas, que usam como cobertor para o seu ego. Mas e se falarmos sobre os humanos antigos, ancestrais que viviam os tempos da sobrevivência, podemos dizer que suas pinturas rupestres também enalteciam suas vitórias? Ou melhor, a arte rupestre desses humanos ancestrais era a forma encontrada para dar valor aos seus feitos?

São perguntas bem óbvias, afinal de contas, segundo especialistas (arqueólogos, linguistas e antropólogos), o pensamento contemporâneo é o resultado da derivação de um pensamento arcaico. Mas… e se inserirmos um pouco de poesia nessas impressões rupestres das mãos, será que veremos um pensamento tão arcaico assim?

Nossos ancestrais eram muito mais conectados com o Todo [sim, com letra maiúscula e com ausência de religião]. As histórias eram contadas, repassadas através da fala primitiva e derivada dos sons que esses humanos aprenderam a verbalizar. Palavras que voaram ao vento e no vento se perderam. E é aí, no vento ecoante, que podemos responder sobre as mãos da caverna. Apreciem o pequeno conto:

“Nahuel, recebeu esse nome pelo fato de sua mãe ter escutado o miado forte e poderoso de um puma enquanto estava em trabalho de parto. Ele sempre fora um menino perspicaz, silencioso e atento a tudo ao seu redor. Antes mesmo do rito de passagem, ele já acompanhava seu pai nas caçadas aos mamíferos ruminantes que viviam nas montanhas que ele chamava de lar. Em um belo dia, o guerreiro Nahuel se encantou por Aika, a bela jovem que trançava um cesto com as fibras secas de quilin. Afoito e envolto por uma paixão arrebatadora, Nahuel fez o impensável: prometeu a ela que caçaria o puma que lhe compartilhava a vida, para se tornarem um único ser. Compartilhariam a mesma energia e imperariam por todos os picos e terras que um dia foram de seus ancestrais.

O tempo passou, até que um dia Nahuel ouviu o chamado. Um miado robusto ecoava pelas escarpas da montanha. Ele sabia que o momento havia chegado e partiu sem olhar para trás, sem observar o que o Natural queria lhe dizer. Aika percebeu que seu amado havia esquecido sua arma, aquela que usaria para se apossar do coração do puma. Ela não pensou duas vezes, e mesmo em um estágio avançado da gravidez, o seguiu para lhe entregar o objeto pontiagudo.

Aika não teve êxito em sua empreitada, pois entrou em trabalho de parto, e para se proteger, buscou o abrigo de uma caverna. As contrações seguiam fortes, seu filho estava vindo. Uma contração violenta e ela não aguentou, gritou a dor exacerbada pelo amor do filho que chegava ao mundo. Foi quando percebeu que não estava sozinha. Ali, ao seu lado, outra mãe paria. Uma fêmea imponente também paria seus filhotes. Grito humano e miado felino se fundiram e reverberaram nas paredes da caverna. Mãe humana e mãe puma abençoaram suas crias, e se olharam com a ternura e a devoção do Todo. Nahuel chegou no momento em que ambas se aqueciam unidas em um ninho materno. Mãe puma e mãe humana olharam para o homem na entrada da caverna como um único ser. Foi neste momento que Nahuel percebeu a grandeza do Natural e sua ligação com o Todo.

Ao retornarem para os seus, Nahuel contou-lhes a história de como descobriu que não poderia deixar seu ego domar sua sabedoria. Os anciãos, por sua vez, levaram o guerreiro e a mãe ao local dos Feitos Sagrados para perpetuarem sua vivência. Ali, naquele paredão, a mãe imprimiu sua mão em branco para mostrar que era o portal da vida, e o guerreiro imprimiu a sua em vermelho, afirmando que o sangue que derramava era apenas para alimentar sua família e seus entes. “

As primeiras “selfies”. Caverna das Mãos, vale do Rio Pinturas, Patagônia, Argentina. Datação aproximada, 10000 a.P. Todas as mãos impressas em negativo são mãos esquerdas. A técnica era colocar a esquerda na pedra e com a direita ir cobrindo com uma tinta, feita a base de ossos triturados. Assim, a imagem ficava gravada em negativo. Era uma maneira de dizer “Ei, eu existo!”, como nos reafirmamos postando nossas fotos hoje.

Fonte: Bradshaw Foundation, Cuevas de las Manos, Argentina

Os dançarinos por Cláudia Borges

Uma poesia pré-histórica

Dois pesquisadores, Mara e Carlos, ambos jovens, fotogravam o que chamam de “os bailarinos”, no Parque Geológico do Seridó.  Ficaram imaginando que dança os bailarinos estavam dançando e como seria a vida deles.

– Deve ser uma festa a alguma divindade, ou uma dança da chuva em tempos de estiagem.

– Mas aqui as chuvas eram abundantes – respondeu Carlos – eles deviam é estar realizando uma dança ritualística de acasalamento.

– O clima estava mudando, os habitantes da região estavam migrando para perto do Rio São Francisco, eles iam embora e deixavam essas marcas.

Há 9.000 anos, três famílias preparavam-se para a retirada das cavernas que lhes eram tão seguras. Os mais velhos ordenaram a dois rapazes que caçassem à noite. Caso conseguissem, ganhariam lanças e seriam considerados homens. As famílias possuíam uma amizade que lhes propiciava a subsistência, se ajudando mutuamente na caça e na pesca.

Tuá estava com medo. Apenas seu amigo Muá conseguiu a caça para as famílias naquela noite. O bando comeu a pequena caça de Muá e o que restara de uma refeição anterior, bem como alguns frutos colhidos pelos mais velhos. O pai de Tuá estava decepcionado, desejava que o filho fosse forte e corajoso, mas ele se mostrava tímido e acuado, sendo incapaz de sobreviver sozinho.

Tuá, sabendo esses seriam os últimos dias naquele espaço que lhe era tão natural, quase uma extensão de seu corpo, observou – como sempre fazia – a paisagem, os pássaros, os galhos das árvores que se moviam com o vento. Tuá não era um caçador-coletor, ele tinha imaginação, era um poeta, ainda que ágrafo.

Tuá preparava tintas com argilas, folhagens e flores. Pintou suas mãos e como se estivesse escrevendo uma poesia fez uma festa na rocha, produziu as figuras de bailarinos, com instrumentos nas mãos, imortalizando sua alegria e sua música.  Seu pai, ao ver sua obra, compreendeu que o filho não era de lanças. Tuá era a memória, o registro da existência. Assim, os bailarinos poetizados nas cavernas foram surgindo, dançando pelo tempo.

Na atualidade, Mara e Carlos não imaginam um poeta das cavernas. Tiraram suas fotos sem flash dos desenhos e foram fazer seus apontamentos para sua pesquisa.

Os dançarinos, Geoparque Seridó, Sítio Arqueológico do Mirador, RN. Datação aproximada: 9400 a.P. As linhas sinuosas na altura dos quadris nos dão a ideia de movimento. As três figuras estão com os braços e as pernas na mesma posição, indicando uma coreografia. Trazem algum adorno (ou instrumento) em uma das mãos e um na cabeça. Os dançarinos também são brasileiros!

Os esquiadores por Daiane Carrasco

Mamutes, tigres-dente-de-sabre, preguiças-gigante… Soa familiar? Quem não assistiu “A era do gelo” (2002; Chris Wedge; Century Fox) que atire a primeira pedra. O planeta já foi bem mais frio em diferentes períodos do tempo geológico. A última Era do Gelo (Glaciação Würm) durou de 100.000 a 12.000 anos a.P. (antes do presente). Fala-se muito em aquecimento global, gases estufa, mudanças climáticas por ação humana. Mas por que o planeta resfria?

São fatores complexos. Não há uma causa isolada. Mudanças sutis na órbita da Terra e na inclinação do seu eixo diminuem a insolação no Hemisfério Norte, impedindo o degelo da neve no verão. A neve é branca, certo? Então, reflete a luz incidente, o chamado “efeito albedo”, aumentando o resfriamento. O ar mais frio retém menos umidade. O vapor d’água é um gás estufa. Assim, também chove menos, o clima fica mais frio e seco. Com a formação de extensas calotas polares, o mar recua. O nível do mar atingiu a incrível marca de estar 120 metros mais baixo do que agora!

As plataformas continentais ficaram expostas e enormes pontes terrestres se formaram. O estreito de Bering unia a Ásia e a América do Norte a pé enxuto. Houve migração de animais e de grupos humanos. Foi assim que nossa espécie chegou às Américas!

Imaginemos um mundo perdido, com mamíferos de extensa pelagem, tamanho corporal avantajado, predadores à espreita, temperaturas bem mais baixas, e longas distâncias a percorrer. Nossos ancestrais se depararam com este cenário e inventaram esquis. Registraram nas rochas. Deixaram-nos um testamento.

Em cavernas na Noruega e na Rússia há representações de grupos humanos fazendo uso do esqui como meio de deslocamento e de transporte, assim como os trenós. Em Carélia, na Rússia, é possível ver num petroglifo um homem atrás de uma rena, agarrado ao seu rabo, como se quisesse ser puxado por ela.

As renas foram domesticadas tardiamente, talvez o último dos grandes herbívoros a serem manejados pelas populações humanas. Até hoje, os rebanhos mantêm-se em estado semisselvagem. A dieta das renas é pobre em sais. Há cerca de 5.000 anos, aproximavam-se dos acampamentos atraídas pela urina e lambiam os sais de ureia na neve. Com o tempo, viraram cativas desses grupos humanos, servindo de animais de tração e fonte de proteína e de pele para a confecção de agasalhos.

O esqui é muito antigo. Estima-se que há 8.000 anos o povo sami já utilizava hastes verticais e pranchas horizontais sob os pés para deslizar na neve, mas somente no século XIX o esqui converteu-se em esporte e uso recreativo. As estações de esqui tornaram-se símbolo de status social.

Imagino que alguns dos humanos da era do gelo também esquiassem por diversão, descendo encostas em alta velocidade, sentindo a adrenalina nas veias. Talvez não tenhamos mudado tanto assim…

Os esquiadores, Carélia, Rússia. Datação aproximada: 6000 a.P.  Um homem sendo puxado por uma rena. Os demais, com hastes e pranchas sob os pés, lembrando esquiadores modernos. Um lindo registro!

Fonte: Russia Beyond

Os primeiros desenhos animados por Karine Souza e Pousas

Chauvet Sonhador

As mulheres voltavam com poucas amoras. Fiquei feliz, pois teria algo novo para comer. As nozes acabaram e minha barriga contava como as últimas caçadas haviam fracassado.

— Espere os homens voltarem, Ika! — gritou minha mãe ao ver que me aproximava das frutas — E vá já para dentro, está escurecendo.

Sorrateiramente, peguei algumas. Sorri e entrei com as outras crianças. O sumo avermelhado escorria de meus lábios, não escondi meu trunfo. Minha mãe não viu ou ignorou minha traquinagem. Mamie Pont-D’Arc se aproximou. Ela andava com dificuldade, sempre acompanhada.

— Venham cá! Dei uma missão para Tumak e Ika. — disse Mamie acenando para nos aproximarmos dela na fogueira que nos aquecia — Fizeram o que pedi?

Chegamos perto. O cheiro de Mamie era gostoso. Uma mistura de fumaça e gordura das caças cada vez mais escassas, mais distantes da minha minguada barriga. Tumak depositou carvão e torrões de terra aos pés de Mamie, que disse:

— Sou a única aqui que já comeu da carne seca de mamute. Um mau agouro atrapalha nossas caçadas.

Todos estavam atentos às palavras da anciã. Os olhos das crianças brilhavam, os poucos homens nem piscavam e as mulheres absorviam cada som que aquela velha garganta era capaz de emitir.

— Pode sentar, Tumak. Agora vai ser a vez de Ika me entregar algo, sim? — sentenciou Mamie.

Senti meus pelos se eriçarem. Olhei para minhas mãos sujas de amora e lambi o que restava.

— Fez o que pedi, Ika? — sussurrou Mamie — Observou as planícies de Mamie Pont-D’Arc do alto da pedra toda vez que o sol aparecia?

— Sim, Mamie. — respondi tímida.

— Então agora, está na hora da caçada.

Meus olhos pesaram e se fecharam quase por completo. Não via mais que vultos à minha frente. Sentia a respiração pesada.

— Preciso de MilekAngelek e LenokVinetri. — disse Mamie — Hoje vocês dois trabalharão juntos. O registro vai garantir nossa caça.

Passos se aproximaram. Eram eles. Nas grandes caçadas, Milek ou Lenok faziam os registros para nós.

— Ika, abra os olhos. — ordenou Mamie — Conte para a Mamie, o que você vê?

Abri meus olhos e vi o lado de fora da caverna. Algo novo aconteceu. Era como se eu estivesse na pedra, coberta pela noite estrelada e uma lua que trazia muitos detalhes. Demorei a entender: eu era uma enxergadora! Tudo acontecia muito rápido. Poucas vezes estive do lado de fora junto com o escuro. Foi quando meu sangue gelou e eu gritei:

— Leões! Leões correndo. São muitos e eles correm para nos pegar. Leões grandes.

Ouvi sussurros e arfagens da plateia. Continuei a olhar, eu não via mais os leões, mas ouvia Lenok e Milek rasgando a parede com a mesma voracidade deles. Eu via o mundo lá fora e a parede lá dentro. Enquanto eu era enxergadora, eles eram escutadores. Com tintas e traços, traziam a vida para as paredes de nossa caverna.

— Mais leões? — disse ao ver um movimento às margens do lago — Não. São cavalos, muitos cavalos.

— Tem um cavalo para nós? — Perguntou Mamie.

Observei a manada. Agora eu via os cavalos do chão. Balbuciei palavras que desconhecia enquanto trocava o meu ponto de observação. Eu não caminhava, mas minha visão pairava e pulava de um lugar para o outro. Olhei para o lado e vi os homens de caça ali.

Uuugh! — gritei de susto.

Cavalos correram por toda a planície. Mamie me pediu somente uma coisa e eu falhei. Senti minhas lágrimas. No mesmo ritmo, Lenok e Milek riscavam a parede.

— Hoje não era dia para um cavalo, Ika. Vê mais alguma coisa?

E foi então que eu ouvi. No começo achei que eram trovões anunciando um castigo por não ter escolhido logo um cavalo. Investiguei toda a planície e o encontrei. Era um mamute. Apontei para ele e lanças sem fim atingiram o gigante animal. Adormeci.

Quando acordei todos festejavam pelo sucesso da grande caçada. As crianças ainda se divertiam com os recentes painéis. Eram vivos, realistas. Parecia que os leões se moviam e os cavalos cavalgavam. Lenok e Milek alcançaram um novo nível naquela noite.

— Hoje você ajudou na caçada. — disse Mamie chegando ao meu lado — Uma nova vidente para nós. Suas palavras ajudaram a trazer belíssimos registros.

Fiquei por horas vendo os desenhos. Como eram reais, como se moviam! Será que os animais ganhariam vida e saltariam da parede para nos atacar?

— Ika, vem me ajudar. Não dá para ficar o dia inteiro com os olhos grudados nesses painéis. — grunhiu minha mãe — Vá ver a vida além da caverna. A realidade é mais bonita do que mera impressão.

Os primeiros desenhos animados! Caverna de Chauvet, França. O “painel dos cavalos” e o “painel dos leões”. Datação aproximada, 36000 a.P. Até o momento, essas são as pinturas mais antigas datadas. Paradoxalmente, são as melhores! Será que existiu um Leonardo Da Vinci das cavernas? Um gênio que nos presenteou com a sua arte? Nunca saberemos. O que torna as gravuras mais impressionantes foi a técnica de animação quadro-a-quadro, empregada nos cartoons até décadas atrás. Com a iluminação do fogo, era possível dar a impressão de que os animais se moviam. Sensacional!

Fonte: Bradshaw Foundation, Understanding Chauvet; Chauvet Cave
Fonte: Bradshaw Foundation, Understanding Chauvet; Chauvet Cave

Livros Indicados

Vamos incentivar os pequenos! Nesta edição selecionamos títulos para a garotada se interessar por ciência. São livros que abordam conceitos científicos de forma lúdica para despertar a curiosidade e a imaginação.

A casa dos pequenos cientistas
Autor: Joachim Hecker

Um grupo de pequenos cientistas mora numa casa que se desloca pelo mundo e estaciona onde lhe dá na telha. Ora ela para à beira de um lago, ora à beira do mar, ora no alto de uma montanha. Em cada lugar, as crianças desembarcam e acabam se vendo diante de algum fato intrigante: um elefante com dor de dente, uma baleia encalhada, o sumiço de um documento, o aparecimento de desenhos numa caverna desabitada. Obrigados a resolver essas situações e mistérios, os pequenos cientistas acabam dando ensejo a experiências simples e interessantes, que os leitores podem reproduzir em casa ou na escola. No final, sempre vem a explicação científica do fenômeno, com informações adicionais para os mais curiosos.
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O dilema do bicho-pau
Autor: Angelo Machado

A história de um pequeno inseto às voltas com suas descobertas do mundo e com uma dúvida: não sabe se é bicho ou se é pau. Ao longo de suas aventuras, vai descobrindo que, para driblar os perigos da floresta e a ameaça dos predadores, às vezes vale mais ser bicho, e outras vezes é melhor ser pau.
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Como eu cheguei aqui?
Philip Bunting

Como eu cheguei aqui? Para responder a essa pergunta, o livro traça a sua história desde o Big Bang (teoria que explica a origem do universo) até o seu nascimento. A tarefa não é fácil, mas, com muita graça e simplicidade, nosso autor começa a apresentar a formação das estrelas, do sistema solar, do planeta Terra, dos primeiros seres vivos até chegar a você. No correr da leitura, o leitor, que também é personagem, descobre que todos os seres humanos têm a mesma origem. Assim, não há como negar o destino comum de todos nós, e a necessidade de atuarmos juntos para preservar a nossa espécie e o planeta que habitamos.
Saiba mais… (Amazon)

Sérgio Fernandes Associado Amazon.

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Corpo Editorial

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Escritores da Edição nº 29 de 2026 – A arte rupestre – O espirito humano

Igor Pires Leon
Escritor

Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.

editoranauta.com.br
clubedeautores.com.br

Instagram: @igorpiresleonescritor

Mara Bayni
Escritora, Aromaterapeuta e Terapeuta Holística

Instagram: @mbescritora

Autora dos Livros 240 horas, Godheid, Sangre de Diosa e Código de Sangue e Honra.

Cláudia Borges
Técnica Administrativa na FURG

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Além do Mulherio das Letras, participa do coletivo Escritores de Quinta e Poetas Papareia e dos grupos de pesquisa Poéticas Orais e Pensamento Decolonial e Literatura e Identidade na América Latina

Coautora do Livro Delírios de Quinta

Karine Souza e Pousas
Escritora, Pedagoga, Comunicóloga e Ghostwriter

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