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E aí, leitores?!
Prepararam o balde de pipocas? A edição é dedicada à Sétima Arte! Sim, uma ode ao cinema!
Já pararam para pensar que quando assistimos a um filme, sabemos de antemão que tudo exposto na tela é uma grande farsa? Porém, mesmo assim, nos emocionamos com o que acontece na história. Sabem por que isso acontece? Nosso cérebro é grande. Como resultado, há muitos neurônios destinados a associações complexas. São neurônios ávidos por padrões, por emoções, por imaginação. Então, quando prestamos atenção em um filme, depois de três minutos aproximadamente, o cérebro esqueceu que tudo ali é uma mentira. É um fenômeno conhecido como “suspensão temporária da descrença”. Se pararmos e observarmos os bons filmes, perceberemos que os diretores se esforçam para criar imagens marcantes nos primeiros minutos de exibição, justamente por conta desta propriedade cerebral.
Qual é a importância da suspensão temporária da descrença? Bem… o cérebro é grande e exigente! Para se manter ativo e saudável, precisa ser nutrido por boas histórias. É um repertório que faz com que os seres humanos interpretem o mundo e interajam com seus pares, convivendo em sociedade. O que temos presenciado nos últimos tempos é que somos bombardeados por vídeos relâmpagos, de 20, 30 segundos. Não há tempo suficiente para imersão em uma narrativa. É a era da distração. Não existe entretenimento. Caímos em uma armadilha: o cérebro ambiciona prazer, e como esse não vem em 20 segundos, procuramos por mais. Quando percebemos, passamos horas rolando o feed das redes sociais, como viciados.
É necessário uma reeducação audiovisual urgente: menos reels, mais filmes! Trouxemos aqui algumas dicas. Aproveitem! Como diria John Millius, diretor de Conan, o Bárbaro (1982): “A dor é passageira, os filmes são eternos.” Desfrutemos do tempo passageiro, apreciemos o legado eterno.
Boa leitura!

O Garoto (1921) – Charles Chaplin, por Igor Pires Leon
Estava em casa sem fazer nada, entediado. Lá fora um calor dos diabos, que não dava vontade de sair. Liguei a televisão e, para piorar, não havia nada de interessante. Coloquei num canal de esportes, mas eram sempre as mesmas notícias, apenas retrabalhadas. Nos canais de streamings, nenhum filme me chamou atenção. Então…
Vasculhei minha coleção de DVDs à procura de um bom filme. Não vou negar, tenho uma ótima coleção de filmes dos anos 40 e 50, minhas paixões. Fiquei na dúvida entre assistir a um filme noir e um drama dos anos 50, aqueles carregados, de fotografia sombria em preto e branco. Nem um, nem outro. Escolhi um clássico de Charles Chaplin, O garoto. Assisti há alguns anos, não uma, mas várias vezes, sempre me divertindo e me emocionando com a história entre o garoto e o vagabundo.
A mãe abandonada, com uma criança recém-nascida, desiludida da vida. Vê-se o olhar triste e desamparado da mulher. Após caminhar muito, para diante de uma mansão e deixa a criança dentro de um automóvel de luxo, talvez com a esperança de que seu filho tivesse um futuro melhor.
Mas eis que o destino pôs dois bandidos no caminho no bebê. Eles entraram e roubaram o automóvel de luxo. Os meliantes não perceberam que havia uma criança e só foram descobrir quando algum tempo depois pararam o veículo e ouviram o choro do bebê. Não tiveram dúvidas, abandonaram-na ali, na rua, sem dó nem piedade, ao deus dará. Mas eis que o destino dá suas caras novamente. Um vagabundo encontra o bebê. No início, não quis ficar com ele. Tentando se livrar, colocou-o no carrinho de uma mãe. Não conseguiu. Tentou de todos os modos, sem resultado. Ficou com o bebê, um menino, cuidando dele como se fosse o verdadeiro pai.
A criança cresceu. A relação entre ambos tornou-se forte, de pai e filho. Vemos cenas hilárias, como o garoto quebrando vidraças para que o vagabundo as consertasse em seguida, ou a reação do vagabundo com a presença da polícia.
A perseguição, que era uma constante na sua infância pobre na Londres do final do século XIX, Chaplin quis retratar no filme. Ele e seu irmão estavam sempre fugindo da polícia que queria levá-los para o orfanato. Outra curiosidade é que Chaplin encontrava-se deprimido por ter perdido seu filho, num momento de pouca ou nenhuma criatividade. Imaginem: um gênio sem criatividade! Não consigo acreditar! Tudo bem, somos humanos, então… Era para ser um curta, um filme de dois rolos, mas acabou com seis e com uma hora de duração. Coisas de Charles Chaplin. Sem imaginação? Duvido!
Seguindo o enredo, a mãe, já uma atriz famosa, que tornou-se uma benfeitora, aparece na vila em que moravam o garoto e o vagabundo. A criança senta-se ao lado dela, mas em momento algum ela desconfia que é o filho que ela abandonara para ter uma melhor sorte. Mas percebe-se que o garoto sente algo pela mulher, um carinho pela mãe que ele não teve.
O diretor de um orfanato surge no casebre de ambos, com o intuito de levar o garoto. A cena da luta do vagabundo pela permanência do filho ao seu lado é emocionante. O diretor e o vagabundo se engalfinham, surge a polícia que o domina, enquanto um outro funcionário leva o garoto para um caminhão. Assistimos ao choro da criança desesperada querendo o “pai”, o amigo, o seu protetor, suplicando por ajuda. Uma cena de cortar o coração. Torcemos para que ele consiga se livrar daqueles que querem lhe prender num orfanato.
O vagabundo consegue se livrar das garras das autoridades, dando início a uma perseguição da polícia sobre os telhados das residências. O salto triunfal sobre a caçamba do caminhão, a luta renhida entre o vagabundo e o diretor do orfanato, a vitória, o amor vencendo, o abraço, o beijo, a fuga.
A mulher retorna para o casebre, descobrindo que não há mais ninguém morando ali, encontrando um médico que cuidara do menino quando ficou doente. O bilhete, a descoberta de que aquele garoto era de fato o seu filho. A esperança de revê-lo, de tê-lo ao seu lado como ela sempre desejou. Uma recompensa para quem descobrir o paradeiro do garoto e do vagabundo.
A criança é levada do vagabundo quando este estava dormindo num albergue repleto de moradores de rua. O desespero ao ver que o menino havia sido levado. O homem retorna para onde morava, a porta trancada. A tristeza, o sonho com uma vila alegre, paradisíaca, com anjinhos… até que os demônios invadem a vila e colocam o caos, as brigas…
Acordado por um policial, o vagabundo é levado para uma residência luxuosa e… A felicidade do garoto por reencontrar seu “pai”, amigo, protetor. O abraço, o beijo, o final feliz. As lágrimas de quem assistia ao filme mais uma vez e se emocionava com todas as cenas. Risos e lágrimas. Mais risos que lágrimas. Um belo filme.


O Garoto (1921)
Uma mãe solteira deixa um hospital de caridade com seu filho recém-nascido. A mãe percebe que ela não pode dar para seu filho todo o cuidado que ele precisa, assim ela prende um bilhete junto a criança, pedindo que quem o achar cuide e ame o seu bebê, e o deixa no banco de trás de um luxuoso carro. Entretanto, o veículo é roubado por dois ladrões, que, quando descobrem o menino, o abandonam no fundo de uma ruela. Sem saber de nada, um vagabundo faz o seu passeio matinal e encontra a criança. Inicialmente, o homem quer se livrar dele, mas diversos fatores sempre o impedem e, gradativamente, ele passa a amá-lo. Enquanto isso, a mãe se arrepende e tenta reencontrar seu filho, mas quando descobre que o carro foi roubado, pensa que nunca mais verá sua criança. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.

Ladrões de Bicicletas (1948) – Vittorio de Sica, por Fernanda da Fonseca Pereira
Um bom filme, vale a pena!
Vinda de uma família pobre, como tantas outras no nosso país, tive acesso ao cinema como ferramenta educativa apenas ao ingressar na faculdade. Foi nesse período, como integrante do Movimento Estudantil, que fiz parte de um projeto social implementado pelo Instituto Mário Alves[1], o qual tinha como objetivo levar até as escolas reflexões políticas a partir de filmes. O projeto se chamava “Cine-Popular” e incitava reflexões e discussões políticas. Foi ali que compreendi que a arte é aliada da educação, pois é capaz de desconstruir a alienação, criando sujeitos críticos.
Projetos como Cine-Popular na contemporaneidade são ainda mais importantes, pois estamos educando para a incapacidade de reflexão, haja vista a superficialidade produzida pela rapidez das informações, que soterram crianças, adolescentes e famílias do mundo inteiro. Acostumamo-nos a informes rápidos e temporários, como notícias de reels.
A influência do cinema na formação/educação das pessoas, ao longo da história, provocou mudanças sociais significativas, fomentando o questionamento de crenças e valores, oportunizando uma reflexão a partir da diversidade de ideias expressas pelo olhar dos cineastas. Dentre os diversos filmes de vertente política está Ladrões de Bicicleta (1948), dirigido por Vittorio De Sica, um marco do neorrealismo italiano que aborda o desemprego e a precariedade econômica no pós-guerra, representada brilhantemente pelo ator Lamberto Maggionari. A condição operária para ser empregado era ter uma bicicleta. O homem pobre que trabalhava colando cartazes pela cidade, junto ao seu filho, tem sua bicicleta roubada e perde o emprego. Sem bicicleta e desempregado, resolve roubar uma bicicleta, com vistas a ser recontratado. Porém, é linchado por outros operários na mesma condição.
O compromisso de representar a realidade cotidiana, materializado no filme Ladrões de Bicicletas, especialmente retratando as dificuldades enfrentadas pelos (as) trabalhadores (as) no período pós-guerra, é característico do movimento cinematográfico neorrealismo, surgidona Itália. Dentre as características dos filmes neorrealistas está a utilização de atores não profissionais, narrativas simples e cotidianas, fotografia e estética documental, uso de locações reais, nas quais os filmes eram gravados em ruas e ambientes naturais e, por fim, uso de temas sociais e políticos, denunciando a desigualdade.
O filme continua atual. Afinal, (re)produzimos um sistema econômico e político que ainda mantém 85,8 milhões de homens jovens desempregados e 173,3 milhões de mulheres jovens desempregadas[2] e ao menos 1,1 bilhão de pessoas em situação de pobreza, vítimas da contínua desigualdade social e das guerras, já que deste 1,1 bilhão, uma parcela de 455 milhões de pessoas são oriundas de países em guerra ou em paz frágil[3].
Se olharmos para o cenário do Brasil, que não se encontra em guerra, vemos que os indicadores sociais, principalmente os educacionais, também não são lá muito bons. Mais de 2 milhões de crianças de até 3 anos não frequentam creches por falta de vaga[4]. Em 2023, 9 milhões de estudantes não conseguiram terminar o Ensino Médio. Destes, 58,1% são homens e 41,9% são mulheres. A discrepância é maior entre a população negra[5].
A educação deficitária soma-se à histórica violação do direito ao acesso à cultura e ao lazer. Apenas 9% dos municípios brasileiros possuem salas de cinema, sendo que 45% da população reside em cidades sem acesso a cinemas. 31,4% da população reside em municípios sem museus e em 23,3% dos municípios é limitada a presença de teatros e salas de espetáculo. Como resultado, 30,6% da população não tem acesso ao cinema ou ao teatro como formas de expressão cultural[6].
Após o fechamento de quase metade das salas de cinema do Brasil em 2020, felizmente a Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura vem se preocupando com esse cenário e investindo na abertura de novas salas, buscando apoio de linhas de crédito do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), e comprometendo-se com a distribuição e exibição cinematográfica, abrangendo o público historicamente excluído[7].
Há um contraste evidente entre a linguagem tradicional do cinema e o formato efêmero e acelerado das redes sociais. Enquanto o cinema trabalha com narrativas longas, com enredo e desenvolvimento de personagens, exigindo um tempo considerável de atenção do público, as redes sociais oferecem vídeos curtos (de 3 a 15 min), numa edição acelerada, cortes rápidos e uma estética, na maioria das vezes, voltada para o consumo imediato. Entretanto, vale a pena assistir a um bom filme! É preciso que professores sejam valorizados, que tenhamos aumento do investimento na Educação Pública, e que a música, a literatura e as diferentes formas de expressão cultural sejam parte importante dos conteúdos ministrados nos espaços escolares.
Contemporaneamente, o filme “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles, que retrata a realidade social e política do país no período da ditadura, foi aclamado internacionalmente, recebendo três indicações ao Oscar: Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor Atriz para Fernanda Torres, vencendo a estatueta de Melhor Filme Internacional. Sendo assim, o cinema brasileiro mostra que é uma grande potência e instrumento de formação de sujeitos.
Mais filmes, mais educação!
[1] O Instituto Mario Alves é uma OSCIP, não partidária e sem fins lucrativos, que visa a construção de um espaço de construção e formação política, tendo na pluralidade e na justiça social seus valores principais. O IMA está localizado no Município de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Para saber mais, acesse: https://institutomarioalves.wordpress.com/
[2] Os dados são referentes ao ano de 2024, tendo como fonte a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
[3]Conforme informações da Organização das Nações Unidas (ONU): https://brasil.un.org/pt-br.
[4] Dados conforme: https://agenciabrasil.ebc.com.br/.
[5] Fonte de dados: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
[6] Fonte de dados: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/ ; https://www.gov.br/pt-br
[7] Fonte de dados: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/cinemas-no-brasil-superacao-recordes-e-expansao-em-2024

Ladrões de Bicicleta (1948)
Direção: Vittorio De Sica | Roteiro Cesare Zavattini, Suso Cecchi d’Amico
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell
Título original: Ladri di biciclette Em Roma um trabalhador de origem humilde, Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), luta para sustentar a família. Precisando de uma bicicleta para começar em um novo emprego, Ricci penhora as roupas de cama da casa. Para desespero da família, a bicicleta é roubada e Antonio sai junto com o filho Bruno (Enzo Staiola) para procurá-la pela cidade. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.


O pagador de promessas (1962) – Anselmo Duarte, por Karine Souza e Pousas
“O pagador de promessas” conta a história de Zé do Burro, um homem simples que mora no interior da Bahia e faz uma promessa a Iansã (Santa Bárbara) para que ela salve Nicolau, seu melhor amigo, um burro. Ao pagar sua promessa, a primeira parte foi fácil: dividir suas terras igualmente com o povo menos favorecido. Porém, na segunda parte, ao levar uma cruz até a igreja da santa, Zé do Burro se deparou com um grande empecilho: o padre, na figura do clero, que representa a autoridade do Estado e o distanciamento dos anseios populares.
Explico: quando abriu a igreja e escutou o caso do fiel Zé do Burro, padre Olavo mostrou-se interessado em saber mais sobre aquele homem que carregou a pesada cruz por sete léguas até chegar ali. Ao saber que a promessa havia sido feita em um terreiro de candomblé, toda a história foi distorcida até o ponto em que o sacerdote o proibiu de entrar na igreja e cumprir o prometido. É a metáfora de que por mais que o povo se esforce, jamais é bom o suficiente para que suas necessidades sejam atendidas por quem detém o poder.
Enquanto Zé do Burro é devoto fervoroso de Santa Bárbara, que visita um terreiro de candomblé para encontrar-se com Iansã, em um belo sincretismo religioso, sua esposa, Rosa, é uma mulher ingênua que segue o marido, mas acaba traindo-o ao cair na tentação ofertada por Bonitão (vigarista da trama) de dormir em um local mais confortável do que as escadarias da igreja.
A imprensa se apropria da história de Zé do Burro de forma sensacionalista, transformando-o em uma espécie de messias que defende a reforma agrária. Grupos menos favorecidos se identificam com a dor do pobre homem (e com as diferentes histórias contadas sobre ele), pois de certa forma compartilham de sua frustração. Paralelamente, Bonitão tem um caso com a prostituta Marli e é sustentado por ela. Tenta aliciar Rosa para a prostituição. Em um dado momento, há uma rivalidade entre as duas mulheres pelo vigarista, o que expõe Zé do Burro.
No ápice dos acontecimentos, o Monsenhor visita a igreja e exige uma condição para permitir a entrada de Zé do Burro: ele precisa abrir mão da promessa feita no terreiro, reforçando o catolicismo como única religião válida para a entrada no céu. Irritado, ele se recusa e se enfurece. Em meio a um tumulto, a polícia mata Zé do Burro em um tiroteio que silencia todos os presentes na escadaria. Neste momento icônico, um grupo de capoeiristas carrega o corpo do homem sobre sua própria cruz para dentro da igreja, pagando assim a promessa.
Adaptado da peça teatral homônima, escrita por Dias Gomes, o filme foi roteirizado e dirigido por Anselmo Duarte, que conseguiu fazer a trama destacar o Brasil nas telas do mundo inteiro de forma bastante original. Com uma produção de altíssima qualidade para a época, “O Pagador de Promessas” foi o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar e único longa-metragem nacional que levou a Palma de Ouro (principal premiação do Festival de Cannes), no ano de 1962.
O filme aponta para problemas contemporâneos, como a perseguição religiosa, as forças de repressão do Estado, a manipulação da opinião pública, e a dominância das hegemonias capitalistas, que minam a liberdade individual/cultural, a igualdade perante a lei e a política voltada para a fraternidade econômica.


O pagador de promessas (1962)
Direção: Anselmo Duarte | Roteiro Anselmo Duarte
Elenco: Leonardo Villar (I), Gloria Menezes, Dionisio Azevedo Zé do Burro (Leonardo Villar) e sua mulher Rosa (Glória Menezes) vivem em uma pequena propriedade a 42 quilômetros de Salvador. Um dia, o burro de estimação de Zé é atingido por um raio e ele acaba indo a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal. Com o restabelecimento do bicho, Zé põe-se a cumprir a promessa e doa metade de seu sítio, para depois começar uma caminhada rumo a Salvador, carregando nas costas uma imensa cruz de madeira. Mas a via crucis de Zé ainda se torna mais angustiante ao ver sua mulher se engraçar com o cafetão Bonitão (Geraldo Del Rey) e ao encontrar a resistência ferrenha do padre Olavo (Dionísio Azevedo) a negar-lhe a entrada em sua igreja, pela razão de Zé haver feito sua promessa em um terreiro de macumba. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.

Terra em transe (1967) – Glauber Rocha, por Daiane Carrasco
Terra em transe é uma das obras-primas do cinema nacional. Filmado em preto e branco, numa linguagem cinematográfica de takes desconexos, sem uma ligação cronológica ou espacial clara entre as cenas, inaugura uma linguagem cinematográfica conhecida como a “estética da fome”, cujo objetivo era fugir dos padrões norte-americanos ou europeus, autenticando o “cinema do terceiro mundo”. O filme conta como Porfírio Diaz, um líder conservador e autoritário, chega ao poder após um golpe de Estado em uma república fictícia. Diaz é interpretado magistralmente por Paulo Autran: “A luta de classes existe. Qual é a sua classe?” As cenas em que ela porta um crucifixo e uma enorme bandeira preta, gritando palavras de ordem, em defesa da pátria e da família, são de uma semelhança assustadora com a história recente do país.
O protagonista é o poeta Paulo Martins, vivido por Jardel Filho. É um homem próximo ao poder e resolve trabalhar para eleger um líder populista, no caso, o governador da província de Alecrim, Felipe Vieira (José Lewgoy). Vieira é eleito, mas mostra-se fraco, incapaz de vencer a pressão imposta pelas forças econômicas locais e nada faz para mudar a situação do povo. É apenas um demagogo. Frustrado, Paulo encoraja-se para a luta armada, mas encontra o seu martírio.
O saudoso Paulo Gracindo é Júlio Fuentes, um poderoso empresário. Representa os interesses do capital estrangeiro em um golpe de Estado na republiqueta. O close em que aparece rindo, em um tom de deboche histérico, é o suprassumo do descaso dos milionários com os pobres do país. Pouco importa mover esforços para melhorar a vida dos menos favorecidos, muito pelo contrário: qualquer insurgência é rapidamente sufocada. É um jogo de cartas marcadas no qual os ricos sempre ganham.
Glauber Rocha foi cirúrgico. O filme traz várias reflexões sobre o histórico político do país. Poderíamos dizer que é um soco no estômago. Felipe Vieira é a própria personificação da esquerda, que vence as eleições cheia de gás, com o apoio popular. Porém, conforme os eleitos se instalam em seus palácios Executivos, não conseguem aprovar as reformas necessárias. Cambaleiam, fraquejam e se rendem à hegemonia do capital e do livre mercado.
Apesar de muitos intelectuais da época terem criticado a estética do filme, dizendo que o mesmo deveria ter sido mais claro em sua mensagem, pois a edição fragmentada o tornou confuso, é indiscutível que Glauber deixou sua marca indelével no cinema mundial. Vários cineastas renomados, como Francis Ford Coppola, citam seus filmes como referência.
Flávio Migliaccio fez uma ponta antológica. Representa um homem comum, da periferia, que encara a câmera e diz, de modo eloquente: “Precisa do Doutor Jerônimo, fazer a política da gente. Mas o Jerônimo não é o povo. O povo sou eu, que tenho sete filhos e não tenho onde morar!” Depois dessa fala, seu personagem é abordado por um homem engravatado que o estrangula com uma corda, aos gritos de “Esquerdista! Esquerdista!” Mais trágico e brasileiro impossível…

Terra em transe (1967)
Direção: Glauber Rocha | Roteiro: Glauber Rocha
Elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy
O senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) detesta seu povo e pretende tornar-se imperador de Eldorado, um país localizado na América do Sul. Porém existem diversos homens que querem este poder, que resolvem enfrentá-lo. Enquanto isso, o poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), ao perceber as reais intenções de Diaz, muda de lado, abandonando seu antigo protetor. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.


Rocky, um lutador (1976) – John G. Avildsen, por Sérgio Fernandes
Eu tinha somente 3 anos quando lançou o filme em 1976. Como eu era muito pequeno, não desfrutei dele no lançamento. Mas com dois irmãos mais velhos do que eu, sendo minha irmã uma fã do Stallone, assisti ao mesmo várias vezes em VHS, DVD. Sou do tempo das locadoras e uma boa locadora tinha várias cópias disponíveis. É um filme que tem valor afetivo, fez parte da minha infância e adolescência.
Não se trata somente de um filme sobre boxe. O roteiro foi escrito pelo próprio Sylvester Stallone, quando ele estava na pior: chegou ao extremo de vender o próprio cachorro por $ 40 porque não tinha mais como alimentá-lo. Depois conseguiu reavê-lo por $ 15.000! Stallone inspirou-se na histórica luta entre Muhammad Ali e Chuck Wepner, em 1975. Ali venceu, mas Wepner, um lutador desconhecido, resistiu à lenda do boxe até o 15º assalto! Toda a aura de “Rocky, um lutador” é de superação: desde o baixo orçamento, pois ninguém acreditava que um protagonista interpretado por um ator principiante em um drama esportivo iria dar pé, ao Oscar de Melhor filme de 1976. É a encarnação do conto de fadas estadunidense.
Então, jovens, vamos à história: Rocky é um valentão pobretão de bom coração, que cobra dívidas de um agiota. Luta em um clube da classe trabalhadora, de pequeno porte, na Filadélfia, como pugilista. Apaixona-se pela tímida atendente de um pet shop no subúrbio onde mora, Adrian (Talia Shire). Inesperadamente, recebe a oportunidade de lutar contra o campeão dos pesos pesados, Apollo Creed (Carl Weathers).
Todo mundo já sabe como acaba: Rocky vence o campeão Apollo e fica com a mocinha. Poderia ser simplesmente um clichê, mas é uma obra de arte pelo meio do caminho entre a primeira cena e o final feliz. Há nuances frágeis, humanas, como a mágoa que Rocky guarda do velho treinador, Mickey Goldmill (Burgess Meredith), por ter sido negligenciado por mais de dez anos. Subentende-se nas entrelinhas que Mickey poderia ser o pai de Rocky, mas, de qualquer forma, apesar de conflituosa, é uma relação terna e verdadeira entre o velho boxeador e seu pupilo.
Outro ponto alto do roteiro é o triângulo entre Rocky, Adrian e o irmão problemático, Paulie (Burt Young). Inicialmente, Paulie apoia o romance de ambos, convidando Rocky para passar o Dia de Ação de Graças em sua casa, e incitando a irmã a sair com ele. Porém, quando a irmã começa a namorar, tem um ataque de fúria, expulsando-a de casa. Quebra tudo e chora porque vê-se solteirão e sozinho. É a inveja da felicidade alheia, tema tão espinhoso, mas abordado de forma muito sensível no filme.
A cena icônica de Rocky correndo pelas ruas e subindo sem pausa as escadarias do Museu de Arte da Filadélfia é a cereja do bolo! Calça e moletom cinza, a trilha sonora marcante e a imagem do homem comum que vence a si mesmo e encara com coragem um desafio quase intransponível conforta a cada um de nós.
Concluo com um conselho que eu poderia vender: jovens, escutem o velhinho aqui. Assistam a “Rocky, um lutador” e inspirem-se. Pode ser para praticar um esporte, para conquistar um amor, para se reconciliar com alguém, para ir atrás de algo muito difícil. Como a letra da icônica canção “Eye of a tiger” (Survivor): “Não perca o rumo dos seus sonhos do passado. Lute para que permaneçam vivos.” E, ainda, como disse o próprio Sylvester Stallone: “A vida não é sobre o quanto você pode bater, e sim sobre o quanto você aguenta apanhar”. E isso Rocky ilustra magnificamente bem.


Rocky – Um lutador (1976)
Direção: John G. Avildsen | Roteiro: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burgess Meredith, Carl Weathers.
Rocky Balboa (Sylvester Stallone), um lutador de boxe medíocre que trabalha como “cobrador” de um agiota, tem a chance de enfrentar Apollo Creed (Carl Weathers), o campeão mundial dos pesos-pesados, que teve a ideia de dar oportunidade a um desconhecido como um golpe publicitário. Mas Rocky decide treinar de modo intensivo, sonhando apenas em terminar a luta sem ter sido nocauteado pelo campeão. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.

E. T. O Extraterrestre (1982) – Steven Spielberg, por Paulo Câncio
Este filme é um clássico premiado com 4 estatuetas do Oscar e 2 Globos de Ouro, incluindo melhor filme (1983). O roteiro é de Melissa Mathinson e dirigido por Steven Spielberg. Os protagonistas são um garoto de 10 anos de idade, Elliot, e um alienígena que cai acidentalmente no planeta terra. A beleza do filme está no laço afetivo entre ambos.
Quando o E.T. cai na terra, a comunidade científica está à sua procura, mas é com Elliot que ele se encontra. Inicialmente, ambos fogem assustados. O menino pensa que se trata de um duende e compartilha o ocorrido com a família e colegas de escola; para os últimos, é motivo de chacota; para os primeiros, é fantasia tola. O irmão mais velho chega a falar: “Por que você não cresce?”, ao que ele responde que o pai que havia se separado da mãe acreditaria nele (ou pelo menos tentaria entrar em seu mundo infantil). E.T. retorna à casa de Elliot, sinal da formação de um vínculo desde o primeiro contato. E.T. começa a imitá-lo, o garoto começa a mostrar seus brinquedos, tenta medir peso e altura de seu novo amigo (comparações que crianças gostam de fazer) e oferece comida.
No dia seguinte, a conexão de E.T. em casa e Elliot na escola é forte. O primeiro assiste TV, mexe na geladeira e suas reações emocionais são refletidas no segundo. A tarefa de Elliot, em sala de aula, é dissecar um sapo. Ele sente o impulso de se conectar com o sapo; o seu sentimento de proteção para com E.T. é transferido para o sapo e ele liberta o animal, induzindo os colegas a fazerem o mesmo. Ele não costumava ser levado a sério pelos colegas, mas sua explosão de amor pela vida foi tão forte que contagiou a todos.
O irmão mais velho e a irmã caçula de Elliot tomam conhecimento do hóspede inusitado e Elliot pede para não contarem à mãe, pois os adultos não podem vê-lo. O roteiro é genial por trabalhar habilmente a dualidade entre o universo das crianças e dos adultos.
E.T. sente saudades de casa e constrói um aparelho de comunicação. O quote “E.T., telefone, minha casa” é atemporal. Ele parece ofegante, como se a saudade o debilitasse. A mãe finalmente toma conhecimento daquele hóspede em sua casa, tão estimado por seus filhos. Logo depois, a comunidade científica chega até eles, leva E.T. e Elliot (acompanhado pela família). Para eles, o alienígena não é um inimigo, é uma maravilha científica que queriam entender. Especulam sobre a relação com o menino.
E.T. passa de um estado débil para uma deterioração crescente. A ciência nada consegue fazer por ele, os sinais vitais vão desaparecendo. Ao questionarem Elliot sobre alguma ideia de como salvá-lo, o menino aponta como única possibilidade ajudá-lo a voltar para casa. É concedido a Elliot um tempo a sós com o E.T. que se recupera quando o menino diz “E.T., eu te amo”. Eles fogem de carro com o irmão mais velho de Elliot, dirigindo, rumo a um local onde o aparelho de comunicação possa ser usado. No meio do caminho, os colegas os seguem de bicicleta, como força de apoio; a comunidade científica, em seus encalços. Em uma manifestação de poder, E.T. levita a todos. A cena das bicicletas passando pela lua é uma das mais bonitas da história do cinema. E.T. faz contato com seu povo e convida Elliot para segui-lo; este pede que aquele fique. Os dois se despedem.
E.T. estava fora do seu ambiente, por isso estava fraco. A afinidade com Elliot lhe deu vida. Ser visto como um objeto de curiosidade científica minou suas forças. A reafirmação do amor de Elliot lhe fez reviver. A empatia elevou seus poderes. Sua força na terra foi o amor. Estava só e precisava ser amado.
Elliot sentia-se solitário. Amar alguém implica em entrar no seu mundo. O filme é inventivo e poderoso porque afirma que a infância, vista como algo de menor valor, merece ser creditada e vivida. A mensagem do filme se reinventa em tempos digitais. A conexão tecnológica é avançada, mas todos nós necessitamos do encontro com o outro, da conexão de coração.

E. T. O Extraterrestre (1982)
Direção: Steven Spielberg | Roteiro Melissa Mathison
Elenco: Henry Thomas, Drew Barrymore, Dee Wallace
Título original: E.T. The Extra-Terrestrial
Um garoto faz amizade com um ser de outro planeta, que ficou sozinho na Terra, protegendo-o de todas as formas para evitar que ele seja capturado e transformado em cobaia. Gradativamente, surge entre os dois uma forte amizade. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.
Mais links na Amazon:
E.T.: The Extra Terrestrial: The Ultimate Visual History (Capa dura).


Uma babá quase perfeita (1993) – Chris Columbus, por Rita Perez Germano
Eu tinha 13 anos em 1993, quando Robin Williams apareceu nas telas vestido de senhora idosa, com óculos grandes, vestido florido e um sotaque afetado. Adorei o filme nas nuances da minha iniciada adolescência, mas questionando o roteiro, me perguntava: “Como ninguém desconfiava que era o pai quem estava ali? Nenhum disfarce é tão perfeito assim.” Uma Babá Quase Perfeita fez o público, e eu, rir e se emocionar com a saga desse pai que se disfarça de babá, desesperado para ficar perto dos filhos após o divórcio.
O filme, assim como eu, envelheceu. Minha forma de viver e perceber as questões sociais mudaram – e muito. Nos anos 90, ninguém questionava a graça da situação: um homem vestindo-se de mulher para enganar a ex-esposa. Hoje há um incômodo que não se pode ignorar: a identidade feminina é tratada como um mero disfarce, uma piada visual caricata e exagerada. Em tempos em que a transexualidade e o direito à identidade de gênero são pautas sérias e respeitadas, a caracterização de Mrs. Doubtfire soa burlesca, superficial e preconceituosa.
Há outro detalhe que, por muito tempo, estava, digamos, normalizado em nosso cotidiano: o estereótipo dos papéis parentais. O pai é divertido, irresponsável, inconsequente. A mãe é séria, rígida, disciplinadora. O pai, antes do divórcio, era o típico pai “legal” que fazia bagunça com os filhos e deixava com a esposa a sobrecarga das responsabilidades da casa, do trabalho e da criação dos filhos. Quando ele se disfarça de Mrs. Doubtfire, algo curioso acontece: pela primeira vez ele assume o peso das tarefas domésticas que ficavam com a mãe e mulher, mas que sempre deveriam ter sido dele também.
Ao vestir um vestido florido e colocar uma peruca, este pai aprende a cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, sem inconstância, e até a impor limites. Ele se torna o pai que nunca havia sido, mas não como homem — e sim sob a identidade de uma mulher. A mensagem implícita, ainda que envolta em humor, é um tanto desconfortável e reflexiva: para ser um verdadeiro pai, ele precisou se tornar, essencialmente, uma mãe.
A ex-esposa e mãe nunca teve o privilégio da irresponsabilidade. Desde o começo, foi a adulta da relação, equilibrando carreira e maternidade enquanto o marido agia como mais uma criança no núcleo daquela família. Sua frustração nunca foi o divórcio em si, mas a exaustão de carregar tudo sozinha.
Uma Babá Quase Perfeita ainda é um filme emocionante. Traz um sentimento bem nostálgico para quem o viveu nos meados dos anos 90, mas revendo com o olhar mais amadurecido de hoje, passadas três décadas e muitas conquistas, percebo que há mais do que perucas, vestidos floridos e sotaques exagerados: há uma mostra silenciosa da desigualdade na parentalidade. O que para Daniel, o pai, foi uma experiência de aprendizado — ainda que disfarçado de comédia — para Miranda, a mãe, sempre foi vida real.
No fim, a grande transformação do filme não está apenas no pai que amadurece, mas no olhar de que cuidar dos filhos nunca deveria ser um mero passatempo masculino, uma “ajuda”, tampouco uma atribuição exclusivamente feminina, pois compromisso, responsabilidade e amor não têm gênero.


Uma babá quase perfeita (1993)
Direção: Chris Columbus | Roteiro Leslie Dixon, Randi Mayem Singer
Elenco: Robin Williams, Robert Prosky, Sally Field
Título original: Mrs. Doubtfire Daniel Hillard (Robin Williams) está passando por uma fase complicada, acaba de se separar de Miranda (Sally Field) e perdeu o seu emprego. Impedido pela ex-esposa de passar mais tempo com os filhos, ele tem uma ideia inusitada para recuperar a relação com as crianças. Daniel veste-se como uma senhora idosa escocesa e tenta conseguir o cargo de babá no seu antigo lar. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.
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As pontes de Madison (1995) – Clint Eastwood, por Daiane Carrasco
O filme inicia-se com um inventário. Alguém morreu. Os filhos vão até a casa materna enquanto a mesma está sendo preparada em uma funerária. Durante a leitura das instruções do sepultamento, a surpresa: a falecida deseja ser cremada e ter suas cinzas jogadas na ponte Roseman, uma bela ponte coberta no condado de Madison. Os filhos estranham, pois, na época (1995), pouquíssimas pessoas optavam pela cremação. Entre os pertences da mãe, encontram um diário no qual a mesma justifica sua opção.
A partir da leitura do diário de Francesca desenrola-se a história. Entre incursões ao passado e o retorno ao presente, os filhos descobrem que ela vivera um grande amor durante uma viagem de quatro dias da família, na qual ela ficara sozinha em casa. Ambos também questionam seus próprios casamentos ao descobrirem a aventura extraconjugal da mãe.
A poderosa dupla Meryl Streep e Clint Eastwood, que também dirige o filme, interpretam Francesca Johnson e Robert Kincaid. Ambos vivem um relacionamento curto, mas intenso.
Clint Eastwood é um diretor hábil. Faz com que não julguemos Robert ou Francesca. As cenas de contato físico entre ambos são bem filmadas, de bom gosto, sem nenhum tipo de apelação. Mesmo após anos, Robert continua amando Francesca, a ponto de deixar pertences e bens para ela. Também pediu para ser cremado e ter suas cinzas jogadas na ponte Roseman (ele morreu alguns anos antes dela). Francesca quer repousar no mesmo lugar que Robert. Pretendem estar juntos após a morte, haja vista que em vida não puderam viver o seu amor. Almas gêmeas? Será?
É difícil competir com a rotina de anos de casamento. A questão moral do filme é justamente essa: o contraponto entre o desconhecido, um forasteiro que devolve a alegria a uma pacata dona-de-casa, e a segurança da família, bem como os sacrifícios que se faz para mantê-la.
O marido é alguém que Francesca já conhece. Sabe de cor os seus hábitos, seus dias de mau-humor, divide a sobrecarga de cuidar de uma pequena propriedade e de dois filhos. O cotidiano faz cair as idealizações. Ninguém é maravilhoso o tempo inteiro. Os pequenos conflitos, os desafios financeiros, o cansaço, a anulação de desejos pessoais – tudo acarreta o apagamento do encanto do início de relacionamento. O que não é necessariamente uma constatação ruim. É simplesmente encarar a vida real com maturidade. Bolo de aniversário é delicioso, mas não dá para comer todo o dia. Uma viagem, um jantar à luz de velas são momentos especiais, mas que representam 1% das situações vividas em um casamento.
O fotógrafo representa um sopro de ar fresco em sua monótona vidinha. É um homem viajado, trabalha para uma grande revista, a National Geographic. É culto, tem uma conversa agradável, presta atenção ao que ela diz, é sexy. Mostra-se com o que melhor tem para lhe oferecer: uma relação sem cobranças. É o lúdico, o sexo bom, sem planos ou preocupações.
Em quatro dias, vivem um romance inesquecível. É aí que reside o dilema do pressuposto narrativo. Uma paixão arrebatadora só foi possível porque não houve tempo suficiente para a rotina, para a decepção. Amar é escolher estar ao lado daquela pessoa todos os dias, apesar dos pesares. É a dose diária de investimento na relação, mesmo com boletos a pagar, obrigações demais e lazer de menos. O encanto de Francesca por Robert teria durado mesmo com as tribulações de uma vida mundana? Nunca saberemos. Mas o que podemos afirmar é que com um contato tão breve, ficaram as boas lembranças, suficientes para que os amantes se julgassem feitos um para o outro. É a máxima de que almejamos as estrelas porque não as podemos ter.
O que temos são os amores vividos, imperfeitos, possíveis. O marido de Francesca, em seu leito de morte, declara seu amor a ela, bem como diz estar ciente dos sonhos que ela abdicou para permanecer ao lado dele. Talvez esse seja o grande legado das Pontes de Madison: o reconhecimento daqueles que conosco partilham a vida.


As pontes de Madison (1995)
Direção: Clint Eastwood | Roteiro: Richard LaGravenese
Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley
Título original: The Bridges of Madison County
Após a morte de Francesca Johnson (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, seus filhos descobrem, através de cartas que a mãe deixou, do forte envolvimento que ela teve com um fotógrafo (Clint Eastwood) da National Geographic, quando a família se ausentou de casa por quatro dias. Estas revelações fazem os filhos questionarem seus próprios casamentos. Saiba mais… Adoro Cinema e WikipédiA.
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Livros Indicados
Nesta edição dedicada à Sétima Arte, nossos livros recomendados seguem uma linha diferente: são dicas para quem quiser conhecer um pouco mais sobre fotografia, história da arte e cinema. Que tal um desses na estante?


Como pensam as imagens
Autor: Etienne Samain
Uma afirmação nos parece suficientemente estabelecida: toda imagem nos faz pensar. Etienne Samain desdobra essa constatação óbvia numa questão mais complexa: será que podemos aprofundar esse dado nos questionando não tanto “por que” ela nos permite pensar, e sim “como” nos faz pensar? Finalmente, ele chega à pergunta inquietante que lança a si mesmo e a outros nove pesquisadores: como pensam as imagens? Etienne Samain nasceu na Bélgica, onde se formou em Teologia. No Brasil, desde 1973, tornou-se antropólogo e fotógrafo, convivendo com as comunidades Kamayurá (Alto Xingu, MT) e Urubu-Kaapor (MA). Interessou-se de modo amplo pelas imagens, desde aqueles presentes nas narrativas míticas até as que são produzidas pelas novas tecnologias. Enquanto se esforçava para fazer da antropologia uma ciência não só de palavras, acabou por aproximá-la da comunicação e da arte. Saiba mais…

O que vemos, o que nos olha
Autor: Georges Didi-Huberman
O ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois, ou seja, o que vemos vive em nossos olhos pelo que nos olha. Partindo desse paradoxo, o historiador da arte francês Didi-Huberman compõe um ensaio que se aprofunda nas questões da arte, da estética e da interpretação contemporâneas. Saiba mais…



A arte do cinema – uma introdução
Autores: David Bordwell e Kristin Thompson
“A arte do Cinema: Uma Introdução” apresenta ao leitor um vasto panorama do fazer cinematográfico, e traz como inovação a abordagem escolhida pelos autores de trabalhar diretamente sobre uma profusão de fotogramas, parte inerente da narrativa fílmica, e não mais sobre a foto de cena. Em sua análise, Bordwell e Thompson abordam em detalhes o cinema clássico norte-americano, abrindo espaço também para autores com outras orientações e nacionalidades – Derek Jarman, Dziga Vertóv, Jean-Luc Godard, Wong Kar-Wai, entre muitos outros – bem como para o cinema experimental e de animação. Fernão Pessoa Ramos apresenta a obra e observa que praticamente não existem compêndios que estudem a arte do cinema em si mesma, buscando destrinchar sua forma numa perspectiva histórica não evolucionista, nem finalista. Esta publicação, que marcou de modo duradouro os estudos sobre cinema nos Estados Unidos, vem preencher essa lacuna. Saiba mais…


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Corpo Editorial

Editora
Daiane Carrasco
Oceanóloga. Escritora.
Instagram: @daiane_carrasco
Autora do Livro Ozzy & Jonny.

Designer e Criação
Sérgio Fernandes
Consultor de T.I. & Terapeuta Corporal.
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Site: sehfernades.com.br
Autor do Livro Zé das Campas.


Escritores da Edição nº 19 de 2025 – A Sétima arte – O Cinema

Igor Pires Leon
Escritor
Graduado em História e Pós-Graduado em Cinema, é autor das seguintes obras:
Veludo Azul contos, pela Editora Nauta; As incoerências e insatisfações de um casal desapaixonado; O caso da mulher desaparecida; O toque do despertador pelo Clube de Autores.
editoranauta.com.br
clubedeautores.com.br
Instagram: @igorpiresleonescritor

Fernanda da Fonseca Pereira
Assistente Social com mestrado e doutorado em Política Social e Direitos Humanos.
trabalho com as comunidades da Zona Oeste do Município do Rio Grande, experiência que provocou a escrita do livro “Reincidência da Violência Contra Meninas e Mulheres Pobres do Município do Rio Grande/RS”. Desde 2014, escrevo no meu blog “Mulher Inteira” dando vida ao desejo pela escrita e reflexão política sobre o mundo, em que (sobre) vivemos. Enfim, sou mulher vinda da periferia, criança crescida em situação de violência, mãe atípica, Sacerdotisa de Umbanda e Mulher de luta e esperança.
Instagram: @fernandadafonsecapereira
Blog: mulherinteira.blogspot.com



Paulo Câncio
Escritor & Pianista
Instagram: @paulocanciodesouza
Autor dos Livros Trajetória de Aventureiro
& Momentos da Vida (Direto com Autor)



Rita Perez Germano
Professora, Educadora e Escritora
Instagram: @ritapgermano

Olga Carrasco Chaves
Ilustração e Fotos
Estudante, nadadora, capoeirista e ilustradora. Amante da arte.
